HOUSTON — A construção de uma estratégia global para reduzir emissões de carbono precisará levar em conta a exposição das economias a choques globais como a que o mundo atravessa agora com a guerra no Oriente Médio.
“Temos que assegurar, planejar muito bem o que é planejável e, evidentemente, ter uma certa flexibilidade para as crises de grande dimensão”, afirma André Corrêa do Lago.
O diplomata brasileiro, presidente da COP 30, está à frente das negociações do mapa do caminho internacional, um instrumento pensado a partir da conferência climática de Belém para desenhar um plano global de descarbonização, e resistente às guinadas geopolíticas.
“Tudo isso mudou muito recentemente, não só, evidentemente, com a guerra, mas também porque tem novos elementos que entraram nessa equação, inclusive os data centers, que estão sendo hoje vistos como um dos principais motores para um aumento da demanda de energia, e também o governo Trump, que reverteu uma política [climática] que vinham sendo acompanhada pelos Estados Unidos há vários anos”.
Correia do Lago falou com exclusividade ao estúdio eixos durante a CERAWeek, em Houston. Os principais pontos da entrevista:
Investimentos em renováveis a partir de crises do petróleo
“Estamos vivendo um momento extremamente desafiador que a Agência Internacional de Energia considera que é o momento de maior disrupção da energia. Ou seja, é um momento extremamente sério. Então, é muito importante como é que a gente vai conseguir comunicar que a transição pode acontecer em paralelo com uma enorme crise de energia, com um certo temor de falta de energia e com a preocupação cada vez maior dos países de terem independência energética”
“Durante anos e anos nós valorizamos a interdependência. Hoje nós estamos numa nova fase e eu acho que é muito importante ouvir a indústria, ouvir quais são as expectativas, porque tudo isso tem que ser incorporado naturalmente dentro do mapa do caminho internacional que a gente está fazendo”
Peso do petróleo em economias emergentes
“Obviamente, o Brasil desponta, inclusive, com uma possibilidade de aumento de produção de óleo por conta desse fator geopolítico. Como que a gente faz para equilibrar esses dois pratinhos da transição? Primeiro, temos que separar o que dá para prever e o que não dá para prever. A gente tem muita coisa que não dá para prever”.
“O mundo está superdividido, um Fla-Flu com relação à renováveis ou com relação a petróleo. E isso não é possível. Nós temos que ter um diálogo racional”, diz.
“Uma coisa que dá para prever é que você está tendo um grande aumento de consumo de energia. Primeiro, por um motivo excelente, é que há um número significativo de pessoas que estão saindo da pobreza e, portanto, estão podendo consumir muito mais. Aconteceu primeiro na China, mas também aconteceu no Brasil, está acontecendo na Índia. Ou seja, isso é um ótimo motivo para ter que aumentar a produção de energia”.
“Mas você também tem outros elementos, como, por exemplo, os data centers, que vão ser, provavelmente, a maior fonte de aumento de demanda de energia, junto com esse aumento do número de consumidores. Essas coisas são as coisas mais ou menos previsíveis”.
“Então, eu acho que a gente tem que se assegurar de planejar muito bem o que é planejável e, evidentemente, ter uma certa flexibilidade para as crises de grande dimensão. E, além disso, a gente tem também as mudanças de políticas nos países.
Sem Fla-Flu entre fósseis e renováveis
“O esforço que nós queremos fazer com o mapa do caminho internacional é assegurar que o debate sobre energia seja mais racional, porque tem meio que torcidas. O mundo está superdividido, um Fla-Flu com relação à renováveis ou com relação a petróleo. E isso não é possível. Nós temos que ter um diálogo racional.
“É isso que nós estamos buscando no mapa do caminho internacional. É isso que nós estamos buscando aqui, assegurar para a indústria que nós queremos ouvi-la.”

Próximos passos do mapa do caminho internacional
“Nesses primeiros meses do ano nós já fizemos uma série de consultas e nós conseguimos já definir a estrutura que o documento deve ter e nós também temos um calendário para esse documento ser discutido. De uma certa forma, você pode dizer que o documento vai ter três partes: uma primeira parte é sobre os desafios, uma segunda parte é sobre soluções que existem e a terceira parte são as conclusões da presidência da COP.
“Em abril, nós vamos ter discussões em Washington, em maio e junho nós vamos ter uma série de discussões, que pode ser na reunião ministerial de Berlim ou na de Copenhague, e sobretudo em junho, em Bonn, que é a conferência do meio do ano da Convenção do Clima”.
“Obviamente, não preciso mencionar que cientistas têm participado também muito ativamente. E também nós temos um conselho de economistas que já atuou na preparação da COP30 e esse conselho de economistas também está trazendo contribuições muito importantes sobre o impacto dessa transição sobre as diferentes economias do mundo”.
Assista a cobertura da eixos diretamente de Houston: