O Nordeste consolidou-se como protagonista da expansão eólica no Brasil. Com 32,4 GW em operação e mais de mil projetos, a região é liderada por Bahia e Rio Grande do Norte, seguidos por Piauí e Ceará.
Essa escalada impressiona: em 2010, o parque produtor era inferior a 0,4 GW. No início, os questionamentos focavam em contratos, preços, cadeia produtiva, leilões e mão de obra.
O setor entrou na pauta nacional como uma vitrine de modernidade e impacto regional.
Contudo, um elemento crucial foi negligenciado: a comunicação estratégica das ações e impactos locais.
Um levantamento realizado entre 2009 e 2025 em diversos canais — de jornais como Folha e O Globo a fontes independentes e órgãos oficiais — revelou uma mudança drástica na percepção pública em todos os estados da região (RN, CE, PB, PE, MA, PI e BA).
Além do aumento gradativo das notícias relativas ao setor no periodo, com a Bahia liderando em volume de menções (1.299), seguida pelo Rio Grande do Norte (891) e Piauí (788).

No entanto, mais importante que a quantidade, porém, é a evolução temática dos registros por biênio:
- 2009-2014: foco no Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), leilões, atração de capital e recordes de geração.
- 2015-2020: surgimento de denúncias ambientais (dunas no Ceará), conflitos fundiários e estudos sobre ruído e saúde.
- 2021-2026: debates sobre Green Grabbing, recordes de conflitos no campo e judicialização massiva.
Essa transição de uma pauta baseada em benefícios para uma dominada por conflitos é alarmante. Em 2009, o sentimento era 90% positivo, impulsionado pela expectativa de empregos e renda. Gradualmente, essa percepção converteu-se em frustração.

Estamos diante de um paradoxo: um dos setores que mais investiu no Nordeste nos últimos 15 anos, com aumento comprovado de PIB municipal e transferência direta de recursos, enfrenta uma propaganda negativa severa. Isso ocorre por um ponto crucial, o setor não soube traduzir seus benefícios para a sociedade.
O cruzamento de dados oficiais com dados de resistência social revela um abismo de informações.
Enquanto associações e agências federais reportam que a energia eólica representa importante percentual da matriz elétrica nacional, com uma potência aproximada de 34,0 GW, os dados mostram que os conflitos no campo atingiram seu segundo maior patamar histórico em 2024, com mais de 2.100 ocorrências.
A análise demonstra que o crescimento da geração não foi acompanhado por uma percepção nas assimetrias de poder ou pela proteção dos bens comuns.
A ausência de uma coordenação que monitore a percepção social permite que narrativas sem base fática comprometam o desenvolvimento regional.
É urgente que as empresas se articulem para apresentar seus bons resultados de forma clara e dessa forma melhorar o diálogo com estados, municípios e órgãos ambientais.
A lição para empresas, entidades e governos é clara: o diálogo amplo é a única forma de mitigar crises de imagem e garantir que os interesses de todos os entes convirjam em um processo de transição energética que seja justa e social.
Jean Paul Prates é chairman do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne).
Darlan Santos é presidente do Cerne.
