Opinião

O Brasil já tem uma matriz limpa, o desafio agora é outro

Substituição de hidrelétricas por fontes renováveis intermitentes resulta em modelo que penaliza quem sustenta a confiabilidade do sistema, escreve Marisete Pereira

Marisete Dadald, presidente de Abrage, diz que hidrelétricas podem aumentar potência com contratos do leilão de capacidade
Marisete Dadald, presidente de Abrage, diz que hidrelétricas podem aumentar potência com contratos do leilão de capacidade

O sistema elétrico brasileiro está mudando, não por perder sua vocação renovável, mas pela forma como essa vocação vem sendo exercida.

A expansão acelerada de fontes eólica e solar alterou profundamente a dinâmica de operação do sistema e trouxe à tona uma realidade que já não pode ser ignorada: segurança do suprimento não se resume à quantidade de energia produzida ao longo do ano, mas à capacidade de o sistema responder, no instante certo, às oscilações da oferta e da demanda.

O Brasil sempre contou com uma matriz elétrica limpa, sustentada por uma base hidrelétrica robusta e estratégica.

Diferentemente de outros países, nosso desafio não é descarbonizar a geração. O que está em jogo é a forma como a matriz se expande.

Na prática, temos substituído, na margem, uma fonte renovável dotada de atributos essenciais ao funcionamento do sistema por outras fontes igualmente limpas, porém não controláveis, e isso tem custo sistêmico.

Esse custo aparece na operação diária. As hidrelétricas, cada vez mais, são chamadas a compensar a variabilidade da geração, ajustar rampas, sustentar a frequência e garantir potência nos momentos críticos. Fazem isso porque podem.

Mas fazem sem que esses atributos sejam reconhecidos de forma adequada nos modelos de remuneração do setor.

Além da energia gerada, as hidrelétricas oferecem capacidade firme, flexibilidade operativa e armazenamento de energia por meio de seus reservatórios, verdadeiras baterias naturais do sistema elétrico.

Ainda assim, esses serviços permanecem subvalorizados. Parte dos serviços ancilares é ressarcida por estimativas de custo; capacidade, flexibilidade e armazenamento sequer são precificados.

O resultado é um modelo que penaliza quem sustenta a confiabilidade do sistema e dilui os custos dos desequilíbrios entre todos os consumidores.

Essa distorção se agrava com a expansão desordenada da micro e minigeração distribuída (MMGD).

Enquanto os ativos com despacho centralizado assumem responsabilidades crescentes, a variabilidade adicional introduzida no sistema não vem acompanhada de obrigações equivalentes.

O efeito é conhecido: sinais econômicos distorcidos, custos operativos crescentes e riscos que deixam de ser visíveis até se tornarem críticos.

O próprio funcionamento do mercado evidencia essa fragilidade. Os preços de curto prazo, formados com base em expectativas do dia anterior, não refletem os custos reais dos ajustes feitos em tempo real.

Falta sinalização clara de escassez, de limites físicos e de restrições operativas. Sem isso, decisões de investimento e operação tornam-se menos eficientes.

Há avanços importantes em curso. No curto prazo, a incorporação mais fiel das restrições físicas do sistema à formação de preços é indispensável.

A Lei nº 15.269/2025 foi clara ao apontar essa direção, ao reforçar a necessidade de maior aderência entre preços, operação e realidade física.

Mais do que isso, a lei trouxe um recado estrutural: novos empreendimentos de geração deverão atender a requisitos de controle, capacidade, flexibilidade e armazenamento de energia ou, alternativamente, contribuir com o custeio da capacidade contrada em mecanismo centralizado.

É um reconhecimento explícito de que confiabilidade não é um efeito colateral do sistema, mas uma responsabilidade que precisa ser compartilhada.

Valorizar e remunerar capacidade, flexibilidade e armazenamento não significa criar custos artificiais. Significa evitar custos maiores no futuro: despacho fora da ordem de mérito, riscos de déficit, investimentos redundantes e perda de eficiência sistêmica.

No limite, trata-se de proteger o consumidor e preservar a segurança de um sistema que sempre foi uma vantagem competitiva do país.

O Brasil dispõe de uma base hidrelétrica única. Usá-la e ampliá-la de forma inteligente, reconhecendo seus atributos e integrando-os a um modelo moderno de operação e expansão, é menos uma escolha técnica e mais uma decisão estratégica sobre o futuro do setor elétrico.


Marisete Pereira é presidente executiva da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage).

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