Opinião

Varejo de energia entra em 2026 sob pressão e força revisão de modelos de negócio

Comercializadoras de energia com modelos intensivos em força de vendas e backoffice pesado encontram maior dificuldade para se sustentar em um ciclo de margens mais apertadas, escreve Raphael Ruffato

Raphael Ruffato é fundador e CEO da Lead Energy (Foto Divulgação)
Raphael Ruffato é fundador e CEO da Lead Energy (Foto Divulgação)

O mercado varejista de energia elétrica no Brasil se aproxima de 2026 diante de um dos períodos mais desafiadores desde a ampliação do mercado livre.

A combinação entre preços elevados da energia, o fim de subsídios relevantes e a desaceleração no ritmo de migrações têm pressionado margens e colocado em xeque modelos de negócio baseados em estruturas comerciais e operacionais bastante custosas.

Nos últimos anos, a estratégia predominante no varejo de energia esteve fortemente ancorada na promessa de economia ao consumidor sem nenhum tipo de investimento. No entanto, esse diferencial vem perdendo força.

Com a redução dos descontos, a capacidade de fechar novos contratos apenas com base na redução da tarifa de energia tornou-se cada vez mais limitada.

Esse movimento ocorre em paralelo a uma mudança no comportamento dos consumidores.

Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) indicam uma queda consistente no número de migrações para o mercado livre.

Muitos consumidores passaram a postergar decisões relacionadas à contratação de energia, seja por priorização de outras agendas corporativas, seja pela percepção de menor atratividade econômica.

Além disso, empresas que não renovaram contratos quando o preço da energia ainda estava em um patamar interessante ou optaram por permanecer descontratadas começam a sentir os efeitos dessa escolha, especialmente em um ambiente de preços mais voláteis.

O cenário reforça um traço histórico do setor elétrico: decisões adiadas tendem a gerar custos mais elevados no futuro.

Diante desse contexto, o desafio para as comercializadoras varejistas deixa de ser apenas comercial e passa a ser estrutural.

Modelos intensivos em força de vendas e backoffice pesado encontram maior dificuldade para se sustentar em um ciclo de margens mais apertadas.

A eficiência operacional, antes tratada como vantagem competitiva, passa a ser um fator de sobrevivência.

Especialistas do setor avaliam que o próximo período funcionará como um filtro natural do mercado.

Empresas que conseguirem atravessar essa fase investindo em digitalização, automação de processos e construção de produtos que entreguem valor além da economia direta tendem a sair fortalecidas no médio e longo prazo.

Essa nova proposta de valor inclui serviços mais consultivos, soluções que tragam previsibilidade, gestão de risco, inteligência de dados e uma experiência mais simples para o consumidor final.

Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que a escalabilidade do varejo de energia estará cada vez mais associada ao uso de tecnologia e à redução da dependência de estruturas humanas extensas.

Embora o curto prazo imponha obstáculos relevantes, a expectativa para a abertura total do mercado em 2027 segue como um vetor estratégico importante.

Empresas que utilizarem o atual ciclo para ajustar seus modelos, fortalecer processos e repensar a relação com o cliente devem estar melhor posicionadas quando o ambiente voltar a se mostrar mais favorável.

No varejo de energia, como em outros setores regulados e de capital intensivo, o longo prazo continua sendo determinante.

Em um momento de transição, a combinação entre resiliência financeira, eficiência operacional e visão estratégica tende a definir os vencedores do próximo ciclo de crescimento.


Raphael Ruffato é fundador e CEO da Lead Energy.

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