Todo velejador aprende que avançar com segurança não requer apenas a força do vento, mas a habilidade de ajustar as velas com precisão.
Elas não ficam simplesmente esticadas: cada cabo é cuidadosamente regulado para aproveitar ao máximo o vento disponível. Em mar calmo, qualquer descuido pode impactar a velocidade ou até parar completamente a embarcação.
No setor elétrico brasileiro, a lógica é parecida. As oportunidades existem, mas navegar sem estratégia em um cenário instável é arriscado.
Nos últimos meses, o ritmo de migrações para o mercado livre de energia desacelerou, refletindo a cautela dos consumidores diante de um ambiente mais desafiador, com preços elevados e maior volatilidade.
Os dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) refletem esse comportamento. Em novembro de 2025, foram registradas 915 migrações.
No acumulado de janeiro a novembro, o total ficou em pouco mais de 18 mil consumidores, bem abaixo das mais de 26,8 mil migrações observadas ao longo de 2024.
Um dos fatores é a volatilidade de preços causada pela centralidade das usinas hidrelétricas no Sistema Interligado Nacional (SIN). Atualmente, elas somam 43,8% da capacidade instalada.
Esse percentual já foi mais expressivo: por volta de 2020 era de aproximadamente 60%. De toda forma, a estrutura de precificação da energia elétrica continua tendo uma relação direta com as chuvas realizadas, que vão recompor os níveis dos reservatórios.
A escassez de chuvas, especialmente no período úmido, acendeu um alerta no setor e pressionou os preços no mercado livre.
No Sudeste/Centro-Oeste, a energia convencional está sendo negociada a cerca de R$ 325/MWh, frente a uma média de R$ 223/MWh em 2025.
Dados do ONS, de 5 de janeiro de 2026, mostram que os níveis de Energia Armazenada (EAR) estão acima de 60% apenas no Sul (71,76%), enquanto no Sudeste/Centro-Oeste estão em 42,66%, no Nordeste 46,51% e no Norte 55,27%.
Além do clima desfavorável, a alta nos preços reduziu a atratividade da migração. Ao longo de 2025, especialmente a partir de março, os preços de energia subiram cerca de 250%, fazendo com que consumidores que projetavam economias de até 40% no mercado livre passassem a observar ganhos menores.
Em alguns casos, dependendo do perfil de consumo e das tarifas da distribuidora local, a migração deixou de ser economicamente viável, levando ao adiamento da decisão.
Mudanças regulatórias também passaram a pesar na análise. A Lei nº 15.269/2025 encerrou a concessão de descontos nas tarifas de uso dos sistemas de distribuição e transmissão (TUSD/TUST) para novas migrações associadas à energia incentivada.
Embora os contratos vigentes sejam preservados, o novo marco reduz a atratividade econômica para novos entrantes e aumenta a complexidade do processo decisório.
A introdução do Encargo de Controle de Subsídios (ECR) reforça esse cenário.
Ao estabelecer tetos individuais de benefício corrigidos pelo IPCA, a nova regra tende a acelerar a perda do incentivo econômico, especialmente em um contexto de crescimento dos custos de transmissão e distribuição acima da inflação.
Olhando para 2026, o ambiente permanece desafiador. Mesmo com eventual melhora hidrológica ou revisões pontuais na carga do Sistema Interligado Nacional, as perspectivas de queda relevante nos preços são limitadas.
A volatilidade deve continuar, com riscos assimétricos para novas altas. Nesse cenário, ajustar as velas significa agir com estratégia.
Consumidores e comercializadoras mais bem-informados, com leitura precisa do mercado e parceiros confiáveis, terão vantagem. Para eles, a gestão ativa de energia deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser essencial para competir.
O mercado está amadurecendo: a cautela de hoje prepara o terreno para um acesso mais amplo nos próximos anos.
Com a sanção da Lei nº 15.269/2025 (de 24 de novembro), indústria e comércio poderão migrar para o mercado livre em até 24 meses, e todos os consumidores, incluindo residenciais, em até 36 meses.
Quem souber navegar com informação e estratégia aproveitará o vento favorável sem se perder nas tempestades.
Thiago Oliveira é sócio e diretor comercial da Armor Energia.