O setor elétrico brasileiro enfrenta um dilema que se intensificou à medida que a matriz se tornou mais renovável: a incapacidade crescente de escoar toda a energia produzida, fenômeno conhecido como curtailment.
A expansão acelerada da geração solar e eólica transformou o Brasil em uma potência energética, mas também expôs limitações estruturais da rede, especialmente em regiões onde a infraestrutura não acompanhou o ritmo dos investimentos privados.
A recente aprovação da MP 1304 reforçou esse cenário ao sinalizar que a compensação financeira pelos cortes de renováveis dificilmente será aplicada de forma plena.
Ou seja: o mercado não deve contar com ressarcimento como solução. Precisamos enfrentar o problema em sua raiz.
É nesse contexto que os leilões descentralizados de baterias e sistemas de armazenamento emergem como uma alternativa concretamente viável, mais eficiente e alinhada ao ritmo da transição energética.
Diferentemente das iniciativas centralizadas, que tendem a depender de longos ciclos regulatórios e grandes obras estruturantes, o modelo descentralizado permite que cada distribuidora contrate capacidade de armazenamento de acordo com as suas necessidades específicas.
Trata-se de um redesenho prático, ágil e direto da arquitetura do sistema.
Armazenamento descentralizado: mitigação ágil do curtailment
Com a contratação distribuída de baterias, cada concessionária pode posicionar o armazenamento nos pontos mais sensíveis de sua área de atuação, reduzindo de forma direta e localizada os eventos de curtailment.
Essa abordagem não parte de uma visão generalista de rede, mas de um mapeamento fino das restrições reais, muitas vezes concentradas em poucos alimentadores ou regiões específicas.
Quando essas baterias entram em operação, o Operador Nacional do Sistema (ONS) passa a atuar sobre uma rede naturalmente mais equilibrada, com maior flexibilidade nas horas de pico e maior capacidade de absorver a variabilidade das renováveis.
Não se trata apenas de aliviar a operação do sistema; trata-se de criar um ambiente de maior segurança para geradores centralizados (GC) e distribuídos (GD), que passam a contar com uma rede capaz de receber sua produção sem cortes arbitrários.
Em outras palavras, a previsibilidade aumenta, o risco diminui e a confiança nos investimentos se fortalece.
Comparação com o leilão previsto para 2028: tempo é o fator crítico
O governo federal já sinalizou a intenção de realizar um leilão nacional de armazenamento com previsão para o próximo ano, que visa contratar empresas para explorar o serviço de armazenamento por dez anos a partir de 2028.
Embora seja um passo importante, o horizonte temporal revela o maior problema: o país não pode esperar até lá.
Entre planejamento, regulamentação, habilitação técnica, contratação, licenciamento e implantação, uma solução centralizada tende a se arrastar por anos, tempo suficiente para que o curtailment se torne ainda mais severo e para que novos investimentos em renováveis percam competitividade.
Em contraste, o modelo descentralizado permite que sistemas de baterias entrem em operação em três a quatro meses, prazo completamente alinhado à velocidade com que o mercado de geração distribuída e centralizada está crescendo.
A diferença entre esperar anos por uma solução sistêmica ou começar a resolver o problema em questão de meses é, simplesmente, a diferença entre permitir que o curtailment se transforme em um gargalo estrutural ou atuar preventivamente.
Além disso, ao pulverizar a contratação entre as distribuidoras, evita-se que um único processo nacional se torne excessivamente complexo, moroso ou vulnerável a revisões políticas e jurídicas.
Leilões descentralizados, em série, permitem ajustes contínuos, agilidade regulatória e uma curva de aprendizagem muito mais eficiente.
Velocidade, previsibilidade e modernização da rede
A agilidade operacional das baterias representa um divisor de águas para o setor.
Enquanto reforços de rede exigem anos de obras e altos investimentos, o armazenamento oferece capacidade de resposta quase imediata.
Em um país cuja demanda por estabilidade cresce na mesma proporção em que se expandem os parques solares e eólicos, essa velocidade é determinante para garantir segurança e competitividade.
Além disso, os benefícios não se limitam à redução do curtailment.
Com mais flexibilidade instalada, o sistema se torna capaz de suportar melhor a intermitência das fontes renováveis, reduzindo a necessidade de despacho térmico em horários críticos e contribuindo para a modicidade tarifária.
Ganha o consumidor, ganham os geradores, ganha o operador, ganha o país.
Uma agenda para o futuro que pode começar agora
Os leilões descentralizados de baterias representam uma oportunidade real de modernizar o setor elétrico brasileiro com rapidez, eficiência e previsibilidade.
São tecnicamente sólidos, economicamente viáveis e politicamente praticáveis.
Mais do que isso, oferecem uma resposta imediata a um problema que não pode ser empurrado para 2028.
Se o Brasil pretende consolidar sua posição como potência renovável global, precisa dotar sua rede de flexibilidade compatível com a nova matriz.
E isso só será possível quando tratarmos o armazenamento como infraestrutura essencial, não como uma promessa distante, mas como uma solução disponível e pronta para ser executada.
Gustavo Ayala é CEO do Grupo Bolt.
