A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a estatal estuda a inclusão de novos investimentos em seu plano de negócios para atingir a autossuficiência no refino de diesel e gasolina, em um prazo de cinco anos. A declaração foi feita durante evento em São Paulo, na manhã desta quarta (1º/4).
“Nós garantíamos com produção nacional cerca de 70%. No nosso plano de negócios, nós tínhamos o ideal de chegar a 80%”, disse. “E nós estamos revendo esse plano e nos perguntando se nós podemos chegar a 100% em cinco anos.”
A ampliação da capacidade do parque de refino atual está sendo viabilizada por meio de investimentos em refinarias existentes. Chambriard citou a expansão da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, cujo primeiro trem de 115 mil barris por dia já foi ampliado para 150 mil, e será duplicada com a construção de um segundo trem.
Também mencionou a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Polo Boaventura no Rio, que deve passar de 240 mil para cerca de 350 mil barris por dia.
“Nós estamos alterando as nossas plantas para entregar cada vez mais diesel, reduzir a quantidade de óleo combustível e entregar cada vez mais diesel, que é o combustível mote do desenvolvimento nacional“, reforçou.
Sobre a possibilidade de retomada do controle da Refinaria de Mataripe (BA), antiga refinaria Landulpho Alves (Rlam) privatizada em 2021 durante a gestão Bolsonaro, Chambriard evitou se alongar. “Bom, Mataripe é uma pergunta difícil”, respondeu, direcionando o foco para os investimentos nas unidades já sob controle da estatal.
Nos últimos dias, porém, especulações sobre a recompra da unidade ganharam força após declarações feitas neste mês pelo presidente Lula (PT), durante anúncio de investimentos em Minas Gerais: “Nós vamos comprar a refinaria da Bahia. Pode demorar um pouco, mas nós vamos comprar“.
Em resposta a questionamento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre o episódio, a Petrobras informou que “analisa continuamente oportunidades de investimentos e negócios, inclusive eventual compra” da refinaria .
A fala do presidente ocorre em um momento em que o Executivo enfrenta dificuldades para conter os preços dos combustíveis — em especial o diesel — em meio à guerra no Irã, que já causa impactos na produção e no transporte de petróleo no mercado global.
Na ocasião, Lula também sugeriu à CEO da Petrobras a criação de uma reserva estratégica de combustíveis no país, uma medida estrutural para regular preços e assegurar o abastecimento em momentos de instabilidade internacional.
Questionada sobre impactos positivos da autossuficiência em diesel para consumidores e acionistas, a executiva destacou: “Para o consumidor, a certeza de que as volatilidades externas não os vão assombrar, porque essa é a nossa política. Para o nosso acionista, é a garantia de um mercado que é talvez o maior mercado consumidor da América Latina”.
“A Petrobras adora desafios. A Petrobras quando desafiada faz milagres, quem sabe a gente chega aí com a possibilidade de ter um novo plano de negócios que a gente vai começar a discutir agora em maio, capaz de entregar em cinco anos a autossuficiência do Brasil em diesel”, completou.
Enquanto isso, preços em leilões acima da tabela
Apesar dos esforços citados para o incremento no refino, a companhia tem recorrido a leilões para vender combustíveis acima dos preços de tabela. Em meio à disparada das cotações internacionais provocada pela guerra no Oriente Médio, a Petrobras comercializou diesel com ágio de até 75% e gás de cozinha com preços até 100% maiores que os cobrados na tabela oficial.
No caso do diesel, a empresa realizou leilões com volumes adicionais após cortar as entregas por cotas.
Em um dos pregões, o derivado foi vendido a R$ 1,78 por litro acima do preço vigente no polo gaúcho. Para o GLP, a Petrobras colocou 70 mil toneladas no mercado — cerca de 15% da demanda mensal do país — com botijões de 13 kg comercializados a R$ 72,77 em Duque de Caxias (RJ), enquanto o preço de tabela era de R$ 33,37.
Por meio dos certames, a companhia coloca combustível mais caro no mercado, elevando suas margens, sem a necessidade de anunciar um aumento de preços. Os custos mais altos são repassados pelas distribuidoras aos consumidores finais.
Com a prática, é possível ofertar volumes além das cotas. Porém, nos casos recentes, a Petrobras cortou as entregas por cotas — compra mensal conforme a média de retiradas dos meses anteriores — e programou leilões, vendendo mais caro sem precisar anunciar reajuste oficial.
A falta de transparência nos resultados desses pregões ocorre por uma brecha regulatória: a ANP não exige a divulgação pública dos resultados detalhados dos leilões que realiza, diferentemente do que ocorre com os preços de tabela, publicados obrigatoriamente na internet (precos.petrobras.com.br).
