De olho tanto no aumento da mistura com a gasolina quanto na produção de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, em inglês), a indústria sucroenergética brasileira embarcou na comitiva da viagem oficial do presidente Lula (PT) ao Japão, nesta semana, em busca de ampliação de mercado para o etanol.
Em jogo, há uma disputa com o etanol de milho dos Estados Unidos.
“Ao dizer que o Brasil é um aliado global para a redução da dependência dos combustíveis fósseis, o governo brasileiro dá respaldo para que os países invistam na viabilização do uso do etanol, puro ou misturado à gasolina, e antecipem as suas metas de descarbonização”, diz em entrevista à agência eixos, o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), Evandro Gussi.
O governo japonês estabeleceu metas para a redução das emissões de gases de efeito estufa, com previsão de aumentar a mistura de etanol na gasolina para 10% até 2030 e 20% até 2040.
Atualmente, o Japão importa cerca de 1,5 bilhão de litros de etanol para a produção de ETBE, um aditivo utilizado na gasolina para reduzir as emissões. Aproximadamente metade desse volume é fornecida pelo Brasil.
Com a nova política de ampliação da mistura de etanol na gasolina, a demanda japonesa pelo biocombustível brasileiro pode dobrar. Além disso, durante as reuniões bilaterais houve um avanço nas discussões para a utilização do etanol na produção de SAF, afirma Gussi.
“Os planos de descarbonização do Japão não estão restritos à mobilidade terrestre. O governo tem planos para o setor aéreo, o que demandará mais de 2 bilhões de litros de etanol para a produção de SAF”, conta.
Disputa com os Estados Unidos
Como pano de fundo da comitiva brasileira ao Japão e as negociações sobre etanol está a guerra tarifária com os Estados Unidos, além da disputa pelo mercado japonês.
Ao mesmo tempo em que o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou tarifas recíprocas, de 18%, sobre o etanol que entra no país, o primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba sinalizou a ampliação das compras de etanol de milho dos EUA.
Sobre a taxação, Gussi acredita que quem mais perderá com as medidas adotadas pelos EUA são os próprios norte-americanos.
“Não estamos em um ponto de regressão. Precisamos avançar na descarbonização. E a maior parte dos países continuam mirando isso”.
Já sobre a disputa entre Brasil e EUA pelo mercado japonês, o presidente da Unica defende que a pegada de carbono do etanol brasileiro é muito inferior à do norte-americano.
Em tese, o uso do etanol brasileiro permitiria que o Japão pudesse alcançar suas metas de descarbonização ou até aumentar suas ambições climáticas comprando um volume menor de etanol, em comparação ao que seria necessário no caso da aquisição de etanol dos EUA.
“Os japoneses dão respaldo à ciência, o etanol brasileiro tem vantagem competitiva na comparação com o produto norte-americano. Não podemos comparar produtos que são incomparáveis. A pegada de carbono do etanol produzido no Brasil chega a ser até 50% menor do que o do etanol dos EUA”.
Etanol brasileiro para descarbonização japonesa
A participação ativa do governo brasileiro na promoção do etanol também foi um dos pontos altos da visita. No encerramento do Fórum Econômico Brasil-Japão, o presidente Lula defendeu o biocombustível brasileiro como estratégico para os japoneses atingirem suas metas ambientais.
“A fala do presidente Lula, no encerramento do Fórum Econômico Brasil-Japão, afirmando que o etanol brasileiro será o porto seguro para os japoneses atingirem as suas metas de descarbonização, reforça o compromisso do governo na criação de um ambiente de segurança institucional e de desenvolvimento do setor de bioenergia brasileiro”, comenta Gussi.
O presidente Lula, em balanço da viagem divulgado nas redes sociais, destacou o papel do Brasil no fornecimento de biocombustíveis, incluindo biodiesel, para o Japão.
“Acho que demos um passo de qualidade. Está aberta a porta para fazermos mais negócios com o Japão. Temos a questão do etanol e do biodiesel em que o Brasil tem muita expertise. Agora é a nossa diplomacia e o nosso comércio que têm que fazer as coisas acontecerem no Brasil”, declarou o presidente.
Já o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, enxerga oportunidades para o etanol brasileiro na produção de SAF no Japão.
“O SAF é um combustível que é constituído de etanol. Portanto, é significativo para a indústria do agronegócio brasileiro. Além disso, estamos trabalhando ao lado de todos os ministros do Japão, inclusive o primeiro-ministro, para que 10% do combustível aqui no Japão seja feito de etanol”, afirmou o ministro.