A transição explicada

A carta das biossoluções no baralho da transição

Proposta da Coalizão pelos Biocombustíveis para o mapa da transição brasileira traz maturidade ao debate, mas biossoluções não podem ser única saída, avalia Pedro Guedes

Pedro Guedes é analista de Transição Energética para Biocombustível do Instituto E+ Transição Energética (Foto Divulgação)
Pedro Guedes é analista de Transição Energética para Biocombustível do Instituto E+ Transição Energética | Foto Divulgação

As biossoluções devem desempenhar um papel estratégico e sistêmico na trajetória da descarbonização da economia brasileira, num processo que pressupõe o desenvolvimento de novas rotas baseadas no carbono biogênico, diversificação tecnológica e inserção industrial cada vez mais significativa do setor.

A proposta da Coalizão pelos Biocombustíveis para o mapa do caminho brasileiro para a transição dos combustíveis fósseis considera esses predicados de maneira muito positiva, na medida em que defende critérios que assegurem efetividade climática com racionalidade econômica para o segmento, propõe a estruturação da bioeconomia industrial dentro de uma estratégia nacional e defende uma governança interministerial para o tema.

Apresentado no final de fevereiro pelo grupo, que reúne executivos do setor de biocombustíveis e frentes parlamentares ligadas ao setor e ao agronegócio, sob a coordenação do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania/SP),o texto apresenta a ambição de consolidar a bioenergia como eixo central da política energética e industrial brasileira.

Esse desenho de horizonte parte da perspectiva sinérgica de redução gradual da dependência de importações de combustíveis fósseis e do estabelecimento de hubs regionais integrados de biocombustíveis.

Essa visão traz maturidade institucional no debate, particularmente no que diz respeito ao biometano, combustível sustentável de aviação (SAF), diesel verde e o uso industrial de bioinsumos (ex.: biometano para a produção de fertilizantes). 

Ao mesmo tempo, o documento dá ênfase à continuidade, centralidade e expansão quase presumida de soluções já consolidadas na área de biocombustíveis, o etanol e o biodiesel.

Trata-se, sem dúvida, de uma visão relevante para a proposta, tendo em vista a importância dos biocombustíveis para a qualidade da atual matriz energética brasileira, e o potencial e a viabilidade de o país expandir significativamente essa participação com ganhos ambientais e econômicos. 

Não se pode perder de vista, no entanto, que o Brasil tem mais alternativas para pavimentar o mapa do caminho da transição para além da centralidade dos biocombustíveis convencionais.

Mais do que se limitar a um setor específico, por mais qualificado que seja, a espinha dorsal da transição tem de ter como protagonistas múltiplas possibilidades, tendo em vista as diretrizes da efetividade climática e da racionalidade econômica.

Essa visão ampla está associada ao fato de que o mapa do caminho da descarbonização da economia pode e deve pavimentar um novo ciclo de desenvolvimento socioeconômico do país, num processo que pressupõe a exploração das nossas vantagens competitivas para ampliar a agregação de valor às riquezas nacionais.

Em termos de combustíveis sustentáveis, isso pode passar, por exemplo, pela produção dos combustíveis de nova geração para a descarbonização do transporte aéreo e marítimo.

Com a participação nesses e em outros setores, as biossoluções se posicionariam como uma carta valiosa no amplo baralho de alternativas para a transição brasileira.

Sem dúvida é louvável que o setor esteja organizado e trazendo contribuições estruturadas para o debate.

Não pode perder de vista, no entanto, que o protagonismo dessas contribuições tem de visar oportunidades de desenvolvimento que vão muito além da repetição de receitas que sozinhas são insuficientes para a essência da transição energética de ser uma ferramenta para o desenvolvimento socioeconômico e ambiental do país.


Pedro Guedes é especialista e responsável técnico de Biossoluções e Fertilizantes do Instituto E+ Transição Energética.

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