Desconcentração do mercado

ANP posterga prazos para envio de contribuições sobre o desenho do programa de gas release

Contribuições deverão ser enviadas até 10/4 e subsidiarão a proposta regulatória da ANP para desconcentração do mercado

Diretor da ANP Pietro Mendes fala ao estúdio eixos na gas week outlook 2026, em São Paulo, em 24 de fevereiro (Foto Edu Viana/agência eixos)
Diretor da ANP Pietro Mendes fala ao estúdio eixos na gas week outlook 2026, em São Paulo, em 24 de fevereiro (Foto Edu Viana/agência eixos)

A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) prorrogou, de 4/4 para 10/4, o prazo para envio das contribuições ao questionário sobre o desenho do programa de redução da concentração no mercado de gás natural (o gas release).

A prorrogação, de acordo com o regulador, foi motivada pelo interesse dos agentes em ampliar a participação e a contribuição técnica ao processo.

As contribuições recebidas irão subsidiar a elaboração da proposta regulatória da ANP. O caso é relatado pelo diretor Pietro Mendes.

Entre os principais temas abordados no questionário está a definição dos volumes de gás a serem disponibilizados, além da duração do programa e possíveis estruturas de comercialização (modelos de leilões e mecanismos de alocação).

A consulta inclui ainda aspectos relacionados às condições de acesso à infraestrutura essencial, como transporte e operação de terminais, bem como mecanismos e salvaguardas concorrenciais destinados a mitigar riscos de reconcentração ou distorções competitivas.

Por fim, o questionário aborda instrumentos de monitoramento, métricas de desempenho e procedimentos de avaliação contínua dos resultados do programa.

Petrobras faz oposição

Na quarta-feira (1/4), a presidente da PetrobrasMagda Chambriard, voltou a dizer que a companhia está comprometida em aumentar a oferta de gás natural no mercado brasileiro, para dar mais competitividade ao energético, e que “mudar o gás de mão não baixa o preço” para o consumidor final.

Petrobras faz oposição ao gas release, que encontra apoio sobretudo entre consumidores industriais e alguns concorrentes da estatal.

“Mudar gás de mão não baixa o preço de gás. O que baixa o preço de gás é o compromisso de produzir gás e botar cada vez mais gás para a sociedade, porque porque ainda não revogaram a lei da oferta e da procura. Quanto mais gás, menor o preço. Quanto mais sapato na sapataria, menor o preço. Todo mundo sabe disso”, afirmou a executiva, ao participar do CNN Talks, nesta quarta.

A executiva repete, assim, um discurso que vem tomando desde o ano passado. Em entrevista ao estúdio eixos, durante a CERAWeek 2025, em Houston, Magda já havia afirmado que o que baixa preço “é botar mais gás no mercado, investir em infraestrutura e gerar condições favoráveis para o investimento”. Assista na íntegra

A Petrobras alega que já assumiu compromissos de desconcentração do mercado em 2019, quando assinou o termo de cessação de conduta (TCC) com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) – posteriormente flexibilizado.

E que, portanto, a abertura do mercado já ocorreu e que a companhia teve a sua participação nas vendas de gás natural reduzidas de 100% em 2020 para cerca de 60% em 2025 – em linha com a participação da petroleira no total de produção de gás do país.

A Petrobras argumenta, nesse sentido, que o mercado brasileiro já convive com uma dinâmica concorrencial, sem a necessidade de instrumentos excepcionais de intervenção.

E que a experiência internacional mostra que programas de desconcentração ocorreram, sobretudo, em mercados essencialmente importadores, e não em países com produção relevante e crescente como o Brasil – e que foram pensados, em muitos casos, para reduzir o tamanho da participação do agente dominante no volume importado.

A Petrobras não é contra somente à iniciativa da ANP. Faz oposição também às discussões sobre o gas release no Congresso – foi, assim, por exemplo, na tramitação do Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), quando o relator, o senador Laércio Oliveira (PP/SE), incluiu o tema do gas release no projeto. O tema acabou não vingando, após pressão da estatal.

Abertura incompleta. O diagnóstico da ANP, no entanto, é de que a abertura do mercado ocorreu de forma desigual entre as regiões do país.

Concorrentes da estatal e consumidores industrias também alegam que, apesar dos avanços da abertura do mercado, a oferta ainda é concentrada num agente dominante que possui uma posição de price maker – com influência sobre a formação dos preços dos concorrentes; e que controla as condições de acesso de terceiros às infraestruturas essenciais, como unidades de processamento e escoamento.

ANP prepara gas release para 2027

A ANP espera iniciar a implementação de um programa de gas release a partir de 2027, com metas anuais de redução da participação da Petrobras, anunciou a agência durante workshop com agentes do mercado, no Rio de Janeiro, em março.

A expectativa é que o 1º ciclo de implementação do programa se estenda até 2030.

  • A meta do regulador é concluir em maio os estudos preliminares e apresentar até agosto a Análise de Impacto Regulatório (AIR);
  • na sequência, a ideia é colocar a minuta de resolução em consulta pública entre outubro e novembro;
  • e concluir a regulamentação do gas release até o fim do ano.

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