Questão de soberania

Minerais críticos entram na disputa presidencial de 2026 

Ao incorporar a agenda mineral, corrida ao Planalto revela visões distintas sobre soberania e relações bilaterais

Governador de Goiás, Ronaldo Caiado, assina memorando com o governo dos EUA para minerais críticos no estado (Foto: Lucas Diener/Agência Goiás)
Governador de Goiás, Ronaldo Caiado, assina memorando com o governo dos EUA para minerais críticos no estado (Foto: Lucas Diener/Agência Goiás)

A corrida global por minerais críticos entrou no discurso dos principais pré-candidatos à presidência da República nas eleições de 2026. 

Ao incorporar a agenda, a disputa presidencial revela visões distintas sobre soberania e relações bilaterais. Temas que devem esquentar os debates da campanha eleitoral.

De um lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) indicam uma aproximação maior com os Estados Unidos. Ambos enxergam o Brasil como fornecedor estratégico para a segurança energética e militar do país norte-americano.

Do outro lado, o presidente Lula (PT) mantém o Brasil aberto a acordos com diferentes parceiros além dos EUA — incluindo China, Índia e União Europeia — enquanto alas do governo cogitam a criação de uma polêmica estatal dedicada aos minerais críticos. 

Transição entre guerras 

No pano de fundo, estão a transição energética e a defesa militar das grandes potências econômicas mundo afora.

Esses minerais são insumos essenciais para baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e equipamentos de defesa — que ganham impulso com uma espécie de nova corrida armamentista, contando inclusive com recursos antes dedicados a projetos de energia renovável.

Hoje, a cadeia de processamento de minerais críticos é concentrada com a China, responsável por cerca de 80% do beneficiamento mundial de lítio e terras raras, por exemplo, o que levou os Estados Unidos a buscarem alternativas para reduzir sua dependência.

Com grandes reservas ainda pouco exploradas, o Brasil surge como peça estratégica nesse rearranjo e, por isso, como campo de disputa política interna, com influência de pressões externas, principalmente de políticos ligados ao presidente dos EUA, Donald Trump.

Bolsonarismo alinhado a Trump

Uma das principais diferenças entre os pré-candidatos está na política externa associada aos minerais críticos.

O senador Flávio Bolsonaro afirmou, na semana passada, durante uma conferência de políticos conservadores nos EUA, que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos”, vinculando o tema à segurança do “mundo livre”. 

A família Bolsonaro vem, ao longo dos últimos anos, defendendo diversos tipos intervenções do governo dos EUA na política brasileira, a partir de articulação com congressistas republicanos e com o secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, o que resultou no tarifaço e no cancelamento de vistos de ministros brasileiros.

Tanto a família, como Trump compartilham a mesma retórica anti-China, o que se aplica ao domínio do país asiático na cadeia de minerais críticos.

Goiás se antecipa em acordo com EUA

O governador Caiado também aproveita as importantes reservas de terras raras do seu estado para marcar um contraponto com o governo Lula na relação com os EUA. 

Na semana passada, o pré-candidato à presidência pelo PSD assinou um acordo de cooperação com os EUA para mapeamento e pesquisa desses minerais, se antecipando a qualquer movimento do governo federal.

Apesar disso, Caiado também avalia acordos com outros países, como o Japão, e aposta em um discurso mais voltado à industrialização desses minerais. 

Ao lançar sua pré-candidatura nesta segunda (30/3), destacou que o estado já regula e explora terras raras, e defendeu que o Brasil deixe de ser “exportador de matéria-prima”.

A assinatura do acordo com os EUA veio um mês após o governador ter sido convidado por Marco Rubio a um evento de minerais críticos em Washington.

Segundo apuração da agência eixos, pelo menos, desde abril do ano passado, representantes do governo Trump estão sondando estados brasileiros para obtenção de informações sobre minerais críticos, em especial lítio e terras raras.

Além de Goiás, Minas Gerais e Bahia foram contatados.

Um dos cotados para integrar a chapa como vice de Caiado é o atual governador mineiro, Romeu Zema (Novo).

Interferência externa e tensão diplomática

Os minerais críticos também foram pano de fundo de um novo episódio diplomático.

Recentemente, o governo brasileiro revogou o visto de Darren Beattie, assessor ligado à administração Trump, após identificar inconsistências no motivo declarado de sua visita ao país.

Inicialmente associada a um evento sobre minerais críticos em São Paulo — onde participaria da assinatura do acordo com Goiás —  a viagem teria como objetivo real visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, então preso no 19º Batalhão da Polícia Militar no Distrito Federal, no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.

Nas eleições passadas, o mesmo Beattie chegou a dizer em entrevista que Lula representava “a versão mais destrutiva e corrosiva” do comunismo.

O caso da visita de Bettie elevou o tom de alerta sobre possível ingerência externa no processo político brasileiro, especialmente em um contexto em que autoridades norte-americanas intensificam contatos com governos estaduais, em busca de informações sobre questões regulatórias e possíveis parcerias. 

Essas iniciativas ainda levantam questionamentos jurídicos, já que a Constituição brasileira estabelece que os recursos minerais pertencem à União, limitando a autonomia de estados para firmar acordos dessa natureza.

O governo dos EUA também aproveitou o evento em São Paulo para enviar uma robusta delegação — Departamentos de Estado e de Energia, a Agência de Comércio e Desenvolvimento dos EUA (USTDA), a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (DFC) e Banco de Exportação e Importação dos Estados Unidos (EXIM).

Segundo representantes da Câmara de Comércio EUA-Brasil, a delegação tinha “um mandato claro de Washington: fechar negócios”. 

Lula e a soberania nacional

Do outro lado, o presidente Lula sustenta que o Brasil deve se manter aberto a acordos com diferentes parceiros, além dos EUA — incluindo China, Índia, Arábia Saudita e União Europeia — evitando um alinhamento automático a qualquer bloco.

E aproveitando o tema de minerais críticos para reforçar a narrativa de soberania nacional frente às investidas de Trump — discurso este que lhe garantiu, por um breve momento, uma recuperação no índice de aprovação deste terceiro mandato.

O governo Lula também tenta viabilizar uma política que permita que o país não apenas exporte matéria-prima bruta, mas que possa assegurar algum nivel de industrialização nacional. Contudo, há mais de dois anos promete, sem sucesso, a publicação de uma política voltada aos minerais criticos. 

Na semana passada, durante 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário (CNDRSS), o presidente voltou a afirmar que seu governo não iria “permitir que eles usem outra vez os minerais críticos que são do povo brasileiro”, sem citar países específicos.

“Eles já levaram todo o ouro, toda a prata e todos os diamantes que a gente tinha. Já mataram todos os índios, já escravizaram negros durante 330 anos”, afirmou.

Internamente, o governo avalia formas de ampliar o controle nacional sobre esses recursos, e criou um Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) para tratar dos minerais críticos.

Uma das ideias em discussão é a criação de uma estatal para exploração de terras raras, informalmente apelidada de “Terrabrás”, segundo apuração do Poder 360. 

Embora ainda incerta — e com resistência técnica dentro do próprio governo, em especial da Fazenda—, a iniciativa indica uma inclinação à nacionalização parcial do setor, em contraste com a abertura defendida por adversários.

Paralelamente, no Congresso, o relator do projeto de lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), promete apresentar seu parecer na segunda semana de abril.

Vale lembrar que os minerais críticos estão na pauta de discussões bilaterais entre Lula e o presidente dos EUA, Donald Trump.

O governo, porém, já descartou a possibilidade de aderir à aliança dos Estados Unidos sobre minerais críticos proposta por Trump. A aliança com mais de 50 países visa reduzir a dependência da China.

A iniciativa inclui o “Projeto Caixa-Forte” (Project Vault), um estoque estratégico de cerca de US$ 10 bilhões com recursos do EXIM.

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