Opinião

O elo crítico da expansão energética no Brasil

O Brasil acertou ao colocar a transmissão de volta no centro da agenda. Agora, precisa aprofundar esse movimento com uma agenda de Estado, escreve Marcela Souza

Vice-presidente sênior da Siemens Energy analisa o elo crítico da expansão energética no Brasil
Marcela Souza, vice-presidente sênior da Siemens Energy para a América Latina. Foto: Siemens Energy

Durante muito tempo, o segmento de transmissão foi tratado como a parte mais consolidada do setor elétrico: essencial, estável, de baixo risco regulatório, mas distante do centro do debate. Era uma atividade vista como técnica, sem o mesmo apelo da geração, distribuição, comercialização ou do consumo.

Esse cenário mudou e, nos últimos anos, a transmissão assumiu um novo protagonismo.

A rede passou a ser o principal determinante da velocidade de integração de novas fontes e, em última instância, da confiabilidade do abastecimento.

Esse não é um fenômeno exclusivo do Brasil. A Agência Internacional de Energia tem alertado que, globalmente, as redes estão virando gargalo para as transições e para a segurança elétrica.

Quando a infraestrutura do “meio” vira limitante, o sinal aparece onde dói: no desperdício de energia e na perda de eficiência econômica.

O avanço das fontes renováveis, a maior complexidade operacional da rede e desafios mais recentes, ajudam a explicar a importância renovada da transmissão.

Esse é o caso do curtailment, que é o corte de geração na produção de energia limpa determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mesmo que haja capacidade instalada e condições favoráveis para produção.

Como consequência, o que antes era visto como um mercado mais previsível, passou a despertar o interesse de investidores e chamar a atenção pública.

É nesse novo momento do setor que se insere o leilão de transmissão promovido pela Aneel.

Seu valor não está em representar, sozinho, uma ruptura ou um ponto de inflexão para a infraestrutura elétrica brasileira. O certame tem outro papel, e nem por isso menor: ele é uma etapa relevante dentro de um processo mais amplo de fortalecimento do sistema elétrico nacional.

O mercado de energia está aquecido, com presença de players experientes e forte apetite competitivo. Mas, ao mesmo tempo, o setor passou a conviver com um fator cada vez mais decisivo: o risco de execução.

Depois de uma sequência robusta de investimentos nos últimos certames, o desafio já não é apenas ganhar; é entregar. E entregar no prazo, em um contexto de pressão sobre cadeias globais de suprimentos, prazos mais longos para construção de equipamentos e a necessidade crescente de reduzir incertezas ao longo da implantação.

Em transmissão, o tempo é uma variável estratégica. Antecipar a energização significa adiantar receita e melhorar a equação econômica dos projetos. Por isso, o mercado passou a valorizar modelos capazes de reduzir exposição a atrasos, consolidar escopos e oferecer mais previsibilidade na execução.

Isso revela uma mudança importante: o setor está mais sofisticado. Também é importante reconhecer que o Brasil avançou porque houve planejamento estratégico.

Hoje o país conta com uma base institucional sólida e com agentes técnicos que vêm estruturando a expansão com visão de longo prazo.

A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) merece destaque nesse processo, ao lado dos demais órgãos envolvidos no planejamento e na operação do sistema.

Reconhecer avanços não significa ignorar o que ainda precisa melhorar e, neste ponto, três frentes merecem destaque.

A primeira é a interconexão regional. O Brasil já possui experiência em intercâmbio energético com países vizinhos, e esse tema tende a ganhar importância nos próximos anos.

Estruturas bem planejadas ampliam a segurança energética, aumentam a flexibilidade do sistema e fortalecem a cooperação regional em momentos de maior estresse.

Em uma América do Sul marcada por complementaridades geográficas e elétricas, essa agenda não deve ser vista como acessória. O Brasil pode, inclusive, exercer papel de referência nesse debate, em sintonia com movimentos que já aparecem em outros mercados da região, como o chileno e o peruano.

A segunda frente é a resiliência da infraestrutura diante das mudanças climáticas. O setor ainda pode incorporar esse debate de forma mais visível e ambiciosa.

Há tecnologias já disponíveis que contribuem para elevar a robustez dos ativos, reduzir impactos ambientais e aumentar a confiabilidade da operação, sobretudo em áreas críticas e em grandes centros urbanos. O sistema nacional precisará, cada vez mais, combinar eficiência, segurança operacional e adaptação a eventos extremos.

A terceira frente é a evolução dos processos institucionais. À medida que o volume de investimentos cresce e as necessidades do sistema se tornam mais complexas, é natural que o país busque mecanismos mais ágeis entre a identificação de uma demanda, sua estruturação e posterior implementação.

Não se trata de abrir mão de rigor técnico ou de competitividade, mas de reduzir o tempo entre o diagnóstico e a ação. Menos burocracia e mais eficiência.

O leilão atual reflete um setor mais valorizado, mais dinâmico e mais estratégico para o futuro da expansão elétrica brasileira. Retrata também que a transmissão deixou de ser apenas a conexão entre oferta e consumo, passando a ser, de fato, a espinha dorsal da confiabilidade do sistema.

O Brasil acertou ao colocar a transmissão de volta no centro da agenda. Agora, precisa aprofundar esse movimento com uma agenda de Estado: mais integração regional acompanhada de governança robusta, e melhor eficiência institucional na passagem do planejamento para a obra.

É assim que a transmissão evolui na mesma escala da ambição energética do país.


Marcela Souza é vice-presidente sênior da Siemens Energy para a América Latina

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