CERAWeek 2026

Vibra com marca da Petrobras foi um erro. Nova estatal seria pior, avalia Décio Oddone

Décio Oddone, ex-diretor da ANP e ex-CEO da Brava Energia critica criação de nova estatal distribuidora, mas aponta erro estratégico na venda da BR Distribuidora com a marca Petrobras

HOUSTON — Toda vez que o preço do combustível sobe no Brasil, muitas das mesmas propostas voltam à mesa. Na crise atual, puxada pelo conflito no Golfo Pérsico e pela alta do barril no mercado internacional, não foi diferente.

Ressurgiram as defesas por um fundo de estabilização de preços, por estoques reguladores estatais e, desta vez com mais força, pela criação de uma nova distribuidora de combustíveis controlada pela Petrobras.

Para Décio Oddone, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e ex-presidente da Brava Energia, essas propostas têm em comum um problema central: ignoram as lições da história e caminham na direção contrária ao que o setor precisa. 

Em entrevista ao estúdio eixos durante a CERAWeek 2026, em Houston, ele analisou cada uma delas, com uma crítica particular à venda da BR Distribuidora, hoje Vibra, ainda operando com a marca estatal da Petrobras.

Por que a marca Petrobras nos postos é um problema político

Oddone não questiona a decisão de privatizar a BR Distribuidora, que se tornou a Vibra Energia. O que ele critica é o modelo adotado: a marca Petrobras foi transferida junto com o ativo e segue nos postos por um período que, segundo ele, se estende até aproximadamente 2029.

Uma empresa privada, sem capital estatal, opera sob a bandeira de uma estatal. Quando o preço sobe na bomba, o cidadão vê o nome Petrobras — e responsabiliza o governo.

“Vai explicar para o cidadão comum que a Petrobras não tem nada a ver com o posto lá nem com o posto aqui. É difícil”.

“Eu me lembro que, na crise talvez de 2020, início de 2020, final de 2019, quando o preço subiu também, o pessoal falava que a Petrobras vendia gasolina no Paraguai mais barato que no Brasil. Mas não era a Petrobras… Claro que a formação de preço no Paraguai é diferente, mas o consumidor sai do Paraná, cruza o Paraguai, tem um posto da Petrobras, que não é da Petrobras, mas está lá a marca Petrobras. E o preço é mais barato”.

O ex-diretor da ANP ilustrou o problema com o caso da Bahia: a produção de petróleo no estado é majoritariamente privada, a refinaria foi vendida, a distribuidora foi vendida, os postos sempre tiveram donos privados — mas a marca nos postos ainda é da estatal. 

“Aí o cidadão vai botar gasolina, subiu o preço, e a Petrobras subiu o preço.” Para Oddone, a solução não é desfazer a privatização, mas reconhecer que a manutenção da marca foi um equívoco estratégico que o setor e o governo ainda pagam.

Nova distribuidora de combustível estatal

A sugestão de criar uma nova empresa estatal para distribuição de combustíveis — levantada como resposta à crise atual — recebeu crítica direta de Oddone. Para ele, a proposta contradiz o movimento estrutural que a indústria brasileira de petróleo e gás percorreu nas últimas três décadas.

O monopólio da Petrobras vigorou até a Lei do Petróleo, de 1997. A abertura que se seguiu, no entanto, foi incompleta — restrita à exploração, defende. Refino e distribuição permaneceram concentrados. 

Apenas a partir de 2019, no governo de Michel Temer, houve aceleração de acordos com o Cade, compromisso de venda de refinarias, abertura do mercado de gás e desinvestimentos como a venda da BR Distribuidora e da Liquigás.

“O caminho está muito mais em continuar o processo de abertura e trazer mais investimento do que voltar a criar uma distribuidora estatal”, afirmou. 

Na sua avaliação, a única alavanca real que o governo tem para reduzir preços de forma sustentável é a competição — mais agentes no mercado, margens menores, mais investimento. Criar uma estatal nesse contexto seria, segundo ele, recuar num processo que ainda não se completou.

Fundo de estabilização: muitas tentativas, nenhum sucesso

Ao lado da proposta da nova estatal, Oddone também criticou a criação de um fundo de estabilização de preços — mecanismo recorrentemente sugerido em períodos de alta.

Durante sua gestão na ANP, foram analisadas dezenas de tentativas históricas de fundos ou mecanismos similares de contenção de preço em diferentes países. Nenhuma funcionou.

O motivo é estrutural. Para que o fundo tenha recursos no momento da crise, é preciso capitalizá-lo quando o preço está baixo — ou seja, manter artificialmente o preço alto para o consumidor num período em que ele poderia estar mais barato. 

“Qual o governo que quer fazer isso, aumentar a inflação quando está tudo controlado? Na prática, é difícil”, questionou. A Cide, tributo que tinha esse objetivo, é um exemplo do que ocorre na prática, dado que o instrumento não resistiu.

A mesma lógica se aplica aos estoques reguladores. Manter milhões de barris comprados pelo Estado implica imobilizar capital público em reservas físicas — num país com pressões fiscais permanentes, Oddone vê pouco espaço real para esse tipo de alocação.

O que está em jogo: novas fronteiras e a concorrência regional

Por trás do debate sobre preços e estatais, há uma questão de prazo mais longo que Oddone considera mais urgente: o Brasil precisará, na próxima década, atrair capital para explorar novas fronteiras petrolíferas.

As reservas do pré-sal caminham para a maturação, e projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da ANP indicam que novos campos serão necessários para sustentar o nível de produção.

Nesse contexto, medidas como o imposto de exportação — adotado em 2022 e reeditado agora — e propostas de novas estatais enviam sinais negativos ao investidor internacional. 

“O capital é volátil. Não tem paixão”, disse Oddone. Guiana, Suriname e Argentina competem pelos mesmos recursos e, em alguns casos, oferecem condições mais previsíveis. O risco, segundo ele, é que o Brasil perca posição justamente quando mais precisa de capital para garantir sua produção futura.


Este material foi desenvolvido com o auxílio parcial de ferramentas de inteligência artificial e subsequentemente revisado por um jornalista. Para esclarecimentos ou em caso de dúvidas, por favor, entre em contato.


A entrevista completa com Décio Oddone está disponível no canal da agência eixos no YouTube. Gravada durante a CERAWeek 2026 em Houston, a conversa cobre desde o impacto do conflito no Golfo Pérsico até os desafios estruturais da política energética brasileira. 

Assista a cobertura da eixos diretamente de Houston:

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