HOUSTON — O armazenamento — seja de energia, via baterias (BESS), seja de recursos como gás natural e equipamentos críticos — emerge como peça-chave para políticas de segurança energética no contexto de acirramentos das tensões geopolíticas, que tem levado à destruição de infraestrutura de energia ao redor do mundo.
Essa é uma das lições aprendidas da guerra entre Rússia e Ucrânia, compartilhadas por autoridades e representantes das empresas de energia da Ucrânia durante a CERAWeek 2026, em Houston, nesta quarta-feira (25/3).
“[A construção de] reservas críticas ou de emergência de equipamentos devem ser criadas em todo o mundo para permitir uma reação rápida diante de crises energéticas ou riscos militares”, afirmou o ministro de Energia da Ucrânia, Denys Shmyhal.
“Porque proteção é a prioridade número um e não diz respeito apenas à Ucrânia. Diz respeito a toda a Europa, diz respeito a todo o mundo civilizado. Porque os tempos mudaram e esses drones russo-iranianos, de pequeno porte, demonstram que qualquer lugar do mundo está sob a ameaça de terroristas”, complementou.
O conflito Rússia-Ucrânia entrou em seu quinto ano, em 2026, ainda sem um rumo claro, além das baixas humanitárias e econômicas envolvidas na guerra — que, agora, soma-se à guerra entre Israel-EUA e Irã, no Oriente Médio.
Em comum, ambos os conflitos são marcados por destruição da infraestrutura energética — sendo o mais recente capítulo dessa história o ataque iraniado às plantas de GNL do Catar, na semana passada.
Rússia pratica ‘terror cibernético’
Shmyhal conta que a Rússia recorre, desde 2022, ao “terror cibernético”, com ataques à infraestrutura energética e a instalações civis de infraestrutura crítica e que a prioridade ucraniana tem sido proteger e recuperar ativos.
Ele cita que, desde a ocupação da Crimeia, a Ucrânia já perdeu mais de 40 GW de capacidade de geração de energia, por exemplo. O país possui, hoje, apenas 11 GW de potência instalada.
Maxim Timchenko, CEO da DTEK, principal empresa privada do setor de energia da Ucrânia, conta que, no início da guerra, a companhia tinha excesso de capacidade e conseguiu transferir equipamentos entre suas diferentes plantas, mas que, com o decorrer do conflito, o estoque de equipamentos se esgotou — principalmente o de transformadores.
“A mensagem crucial que precisamos transmitir é a necessidade de mantermos estoques desses equipamentos — principalmente transformadores, que são os itens mais afetados por esses ataques”
“E é exatamente esse o conselho que oferecemos [à Europa]: comecem a pensar na criação de uma reserva estratégica dos equipamentos considerados mais vulneráveis”, disse.
O diretor Internacional e de Sustentabilidade da Naftogaz, Oleksiy Ryabchyn, relata que, no caso da empresa, o item mais crítico são os compressores de gás e que a companhia recorreu ao mercado dos EUA para formação dos estoques.
Ucrânia mira privatização do setor de energia
O Banco Mundial estima que são necessários US$ 91 bilhões para recuperar e reparar toda a infraestrutura energética ucraniana.
E Shmyhal cita que a Ucrânia planeja privatizar seu setor de energia, no futuro, para dar conta de todo esse investimento.
Segundo ele, a pasta está encaminhando 153 empresas sob sua supervisão para o Fundo de Propriedade Estatal, visando uma futura desestatização.
Guerra exige descentralização da geração
Em paralelo à recuperação da infraestrutura danificada, a reconstrução da Ucrânia exige repensar o próprio sistema energético ucraniano, destacou o ministro.
Ele destacou que o país tem apostado na diversificação da matriz energética
e na geração descentralizada, para reduzir as vulnerabilidades do sistema.
“A geração descentralizada constitui um alvo difícil para os drones russos — incluindo os drones iranianos operados pela Rússia — e para os mísseis russos. Estamos focados na implementação da cogeração e de estações móveis de aquecimento”.
Shmyhal também citou que a energia nuclear se mantém como pilar da matriz ucraniana, mas que as energias renováveis — associadas às baterias e smart grids — tendem a ganhar força.
“Nosso sistema energético deve ser estruturado com base nos princípios de uma célula energética: cada célula deve corresponder a uma empresa, uma comunidade ou uma região. E cada uma delas deve possuir um suprimento de energia autossuficiente”, resumiu.
O pilar principal da geração de energia na Ucrânia é a energia nuclear, responsável por mais de 75% da matriz elétrica.
Shmyhal conta que o país substituiu, nos últimos anos, sua base tecnológica russa.
“Conseguimos eliminar toda a dependência do combustível nuclear russo, migrando para a tecnologia americana da Westinghouse.
O ministro ucraniano defende que a Europa siga o mesmo caminho.
“A tecnologia nuclear russa abrange contratos que totalizam mais de US$ 200 bilhões em diversos países ao redor do mundo. Isso constitui, portanto, uma parte significativa da influência russa e da dependência de outras nações em relação às tecnologias russas”.
Ucrânia quer ser hub de gás para Europa
O país do Leste Europeu era uma das portas de entrada do gás russo na Europa, mas teve sua posição como trânsito de gás da Gazprom encerrada após o início da guerra em 2022.
Com a interrupção gradual das importações de gás russo pela União Europeia, a Ucrânia quer se posicionar como um hub de gás para a Europa.
“À medida que vamos eliminando gradualmente as moléculas de origem russa do continente europeu, substituindo-as por fontes de origem não russa, toda a infraestrutura do mercado de gás na Europa se transforma”, afirmou Oleksiy Ryabchyn, da Naftogaz.
O país possui uma das maiores capacidades de armazenamento subterrâneo de gás, com 30 bilhões de metros cúbicos (BCM). Parte dela — cerca de 10 BCM — é compartilhada com a Europa.
“O armazenamento de gás serve como uma espécie de reserva estratégica para situações em que a entrega aos clientes é temporariamente inviabilizada. Mas, o que é ainda mais importante, confere uma enorme flexibilidade operacional: permite reagir com rapidez, aproveitando oportunidades de arbitragem ou margens de lucro ou, em caso de emergência, enviar esse gás para a Europa de forma imediata”
Gás dos EUA para a Europa
Um dos aliados militares e econômicos da Ucrânia, os Estados Unidos se colocam, nesse jogo, como forrnecedoes de molécula alternativa ao gás russo à Europa.
“Enxergamos a oportunidade de dar vida a diversas rotas para o fornecimento de energia a toda a Europa Central e Oriental, aproveitando a vantagem comparativa que a Ucrânia possui em sua arquitetura atual, especificamente em seu armazenamento subterrâneo, e buscando concretizar essas oportunidades por meio da colaboração, em vez do conflito”, afirmou Josh Voltz, enviado especial do Departamento de Energia dos EUA para a integração energética.
Uma das apostas dos EUA é o Corredor Vertical, que visa conectar os terminais de GNL do Mediterrâneo à Europa Central e Leste Europeu.
“O Corredor Vertical opera um fluxo de sul para norte, substituindo o fluxo de norte para sul que a Rússia priorizava. Há 10 anos, a Rússia enviava cerca de 24 bilhões de metros cúbicos anuais de norte para sul. Atualmente, se otimizarmos o sistema desde a Grécia até a Ucrânia, teremos a capacidade de transportar cerca de 8 BCM ano por meio desse corredor vertical”, explicou.
Isso significa, segundo ele, que mais corredores serão necessários para compensar a interrupção das importações de gás russo pela Europa.
“Tem a rota do norte, via Polônia; a rota do sul, via Croácia; e a Rota Âmbar, via Báltico. Todos esses corredores serão necessários para simplesmente dar conta da situação atual, caso estejamos realmente empenhados em substituir as moléculas russas na Europa”
Assista a cobertura da eixos diretamente de Houston:
