Opinião

Revisão dos preços do LRCAP 2026 reforça importância do leilão para a segurança elétrica do Brasil

Reajuste amplia o espaço para soluções flexíveis, como usinas movidas a gás natural, óleo ou biodiesel, escreve João Carlos Mello

Aneel aprova novos preços-teto do LRCAP (Foto: Reprodução)
Aneel aprova novos preços-teto do LRCAP (Foto: Reprodução)

A recente revisão dos preços-teto do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) 2026 representa um avanço importante para a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Ao atualizar os valores da Receita Fixa, o governo sinaliza maior aderência à realidade econômica dos projetos e reforça a viabilidade de um mecanismo essencial para a confiabilidade do suprimento de energia no país.

Criado pela Lei 14.120/2021 como um instrumento essencial para garantir a confiabilidade do suprimento de energia, o leilão deveria ocorrer anualmente — o que não acontece desde o último certame, realizado em dezembro de 2021.

Daí, a extrema necessidade de seguirmos com este processo o quanto antes e dentro de uma realidade factível.

Para empreendimentos termelétricos novos, o preço-teto foi reajustado de R$ 1,6 milhão/MW.ano para R$ 2,9 milhões/MW.ano.

No caso das térmicas existentes, o valor passou de R$ 1,12 milhão/MW.ano para R$ 2,25 milhões/MW.ano. As hidrelétricas mantiveram o teto em R$ 1,4 milhão/MW.ano.

A atualização corrige uma distorção relevante em relação aos custos de investimento, financiamento e operação observados nos últimos anos, no Brasil e no mundo.

O ajuste feito pelo Ministério de Minas e Energia (MME) demonstra sensibilidade técnica e alinhamento com a realidade do setor elétrico, ao reforçar a necessidade de uma calibragem adequada do certame.

Ao considerar os investimentos requeridos para que usinas existentes operem com segurança ao longo do novo período contratual, além do aprimoramento da estrutura de custos — com a realocação de componentes para a parcela fixa —, o MME, em articulação com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e a Agência Nacional de Energia Eleétrica (Aneel), evidencia uma leitura cuidadosa dos desafios econômicos enfrentados pelos empreendimentos.

A incorporação de evidências recentes do cenário internacional, marcado pela elevação dos custos de capital, equipamentos e financiamento, confere maior robustez técnica ao leilão e fortalece sua viabilidade como instrumento essencial para assegurar a confiabilidade e a segurança do sistema.

É importante destacar que o preço-teto funciona como um parâmetro máximo regulatório. O valor final da contratação será definido pela dinâmica competitiva do leilão.

Ao promover concorrência entre os agentes, o processo tende a garantir eficiência econômica para o consumidor, em linha com a confiabilidade do sistema elétrico.

As diretrizes governamentais fortalecem o LRCAP como instrumento estruturante da política energética.

Criado para assegurar a contratação de potência firme e despachável, o mecanismo é crucial em um contexto de rápida expansão das fontes renováveis intermitentes, como eólica e solar.

Embora essas fontes sejam essenciais para a transição energética, sua variabilidade exige o suporte de usinas capazes de responder com rapidez às oscilações de oferta e demanda.

Nos próximos anos, o desafio será ainda maior. Até 2028, cerca de 14,3 GW de usinas térmicas podem perder seus contratos atuais.

Por isso, temos urgência em dispormos de mecanismos adequados de contratação de capacidade.

Estudos de confiabilidade indicam que o Brasil precisará contratar entre 23 GW e 30 GW adicionais de potência para manter padrões adequados de segurança operativa.

Nesse contexto, o LRCAP 2026 assume papel estratégico.

A revisão dos preços-teto reconhece os investimentos necessários para manter usinas existentes operando com segurança ao longo de um novo ciclo contratual e aprimora a estrutura de custos considerada no certame.

Ao incorporar as condições atuais de mercado — incluindo custos de capital, equipamentos e financiamento — o governo aumenta a probabilidade de participação competitiva e de contratação efetiva de projetos.

Além disso, o reajuste amplia o espaço para soluções flexíveis, como usinas movidas a gás natural, óleo ou biodiesel.

No caso do biodiesel, trata-se de uma oportunidade relevante para o Brasil integrar segurança energética e agenda de descarbonização, aproveitando sua reconhecida competitividade em biocombustíveis.

A segurança energética é um ativo estratégico para o desenvolvimento do país. O LRCAP 2026 é um instrumento central para equilibrar expansão renovável, confiabilidade operativa e crescimento econômico sustentável.

A revisão dos preços-teto é, portanto, um passo decisivo para que o Brasil avance com responsabilidade na construção de uma matriz elétrica cada vez mais limpa — e segura.


João Carlos Mello é CEO e fundador da Thymos Energia.

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