diálogos da transição

US$ 10 trilhões para lucrar com a natureza — sem degradar

WEF identifica oportunidade de US$ 10 trilhões em 50 atividades relacionadas a bio-soluções, resíduos e uso sustentável de recursos

Placas solares fornecem energia renovável a hotel na floresta amazônica (Foto: Divulgação Huawei)
Placas solares fornecem energia renovável a hotel na floresta amazônica (Foto: Divulgação Huawei)

NESTA EDIÇÃO. Relatório aponta US$ 10,1 trilhões ao ano em oportunidades que alinham retorno financeiro e preservação ambiental.

Oportunidades que vão de bioeconomia à reciclagem de baterias para atender à transição energética.

E ainda: Cebds aponta cinco tendências que devem orientar as empresas em 2026. Capital verde é uma delas.


EDIÇÃO APRESENTADA POR:

Relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF) publicado nesta terça (17/3) identifica mais de 50 oportunidades de investimento que podem transformar fluxos de capital em lucro e impacto positivo para a natureza, com potencial de gerar US$ 10,1 trilhões por ano até 2030.
 
O estudo (.pdf) avaliou cerca de 250 atividades empresariais em 13 setores prioritários. 
 
Elas variam de bio-soluções, como fertilizantes sustentáveis ​​e biofabricação, a soluções tecnológicas, como observação da Terra para mineração e agricultura de precisão. 
 
Passando pela geração de valor a partir de resíduos – esgoto, rejeitos de mineração ou resíduos de construção e demolição. 
 
Até negócios que incentivam o uso sustentável da água e de outros recursos nas operações de data centers, indústria automotiva e energia renovável.
 
O documento do WEF é uma espécie de resposta à estimativa do Pnuma de que US$ 7,3 trilhões são investidos anualmente em atividades que degradam os ecossistemas, quando apenas US$ 220 bilhões vão para soluções baseadas na natureza. 
 
“As 50 oportunidades de investimento apresentadas no relatório oferecem abordagens geradoras de receita e de redução de custos para preencher essa lacuna”, diz o WEF.
 
Um dos estudos de caso explorados no relatório é o de reciclagem de baterias.
 
A atividade tem potencial de geração de receita para recicladores, fabricantes e montadoras, ao mesmo tempo em que pode reduzir os custos para os fabricantes — mas é preciso que os preços de insumos para metais reciclados caiam abaixo dos metais virgens.
 
Com o mercado global de baterias de íon-lítio projetado para crescer oito vezes, de aproximadamente 1.000 GWh em 2023 para aproximadamente 8.000 GWh em 2035, puxado pelos veículos elétricos, aumenta a pressão por recursos minerais, com riscos sobre o meio ambiente.
 
A reciclagem é vista, então, como um caminho para contornar disputas por recursos e os potenciais impactos negativos sobre a natureza. 
 
“Sem a recuperação de metais, o mercado poderá enfrentar um déficit de oferta até 2030. O déficit depende da restrição específica de metal nos cátodos das baterias, mas varia de 5 a 10% (cobre) a 40 a 45% (cobalto)”, diz o relatório.
 
Além de atender a regulamentações que já começam a ficar mais rigorosas.
 
“As regulamentações nos EUA e na UE incentivam a reciclagem de baterias, tornando os fabricantes de equipamentos originais (OEMs) proprietários das baterias em fim de vida útil e estabelecendo um requisito mínimo de conteúdo reciclado em novas baterias”, exemplifica.



Também lançado esta semana, o Radar de Tendências do Cebds aponta cinco movimentos que devem orientar decisões estratégicas das empresas em 2026: capital verde, materialidade real, descarbonização em escala, natureza como ativo e cooperação internacional.
 
A análise mostra que o capital verde deixou de ser nicho e passou a integrar o fluxo principal de investimentos, com as emissões de títulos sustentáveis brasileiros no mercado internacional saltando 218% entre 2022 e 2024. 
 
Em 2024 o país emitiu US$ 6,55 bilhões em títulos, ante US$ 2,06 bilhões em 2022. Mas o capital ficou mais exigente. 
 
“Investidores globais querem menos promessas e mais evidência: transparência real, métricas consistentes, materialidade clara e resultados mensuráveis”, alerta o Cebds. 
 
descarbonização também deixou de ser um horizonte para funcionar como critério de decisão no presente, segundo o relatório. 
 
“O Programa Brasileiro GHG Protocol reúne hoje 674 organizações e mais de 1.300 inventários publicados em 2025 — crescimento de 25% em relação ao ano anterior. Entre as 50 maiores empresas do país, duas em cada três já mensuram suas emissões”, destaca. 
 
A avaliação é que as empresas estão “redefinindo como produzem, como investem e como se posicionam em mercados cada vez mais sensíveis ao risco climático, eficiência energética e reputação operacional”. 
 
As soluções baseadas na natureza também estão em alta. 
 
Cada vez mais, estratégias de conservação e restauração de ecossistemas, manejo sustentável do solo e proteção de recursos hídricos passam a ser reconhecidas como componentes da resiliência produtiva e adaptação de cadeias de valor. 
 
Isso se reflete também nos investimentos. O Cebds cita um levantamento da Deloitte Brasil e da Capital for Climate que indica intenção de direcionar US$ 10,4 bilhões para soluções baseadas na natureza até 2027, com a gestão de 2,7 milhões de hectares.


Risco de apagão. O ONS avalia que se o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) não for realizado, as soluções no horizonte para 2026 vão deixar a energia mais cara. Diante dos dados apresentados pelo órgão sobre a oferta de potência, a perspectiva de apagão em 2028 entra no radar.
 
Conexão Brasil-Bolívia. Brasil e Bolívia assinaram um acordo, na segunda (16/3), para viabilizar a interconexão elétrica entre os dois países. Está prevista a construção de linhas de transmissão, além de estruturas de grande capacidade entre os sistemas interligados, com pontos de conexão na província de Germán Busch e no município de Corumbá (MS).
 
Diesel subsidiado. A ANP divulgou nesta terça-feira (17/3) as novas placas que deverão ser exibidas por postos de combustíveis, indicando o subsídio do governo ao diesel. A sinalização está prevista no Decreto 12.876/2026, que regulamenta o combate à especulação e aos preços abusivos na comercialização de combustíveis.
 
Etanol para amortecer impacto. O setor bioenergético brasileiro deve iniciar a safra 2026/27 com produção recorde de etanol, adicionando quase 4 bilhões de litros ao mercado doméstico, volume próximo ao total de gasolina importado pelo país em 2025. A avaliação consta em nota conjunta de Bioenergia Brasil, Unem e Unica.
 
R$ 240 milhões para capacidade energética no Rio. A Enel Rio vai investir R$ 240 milhões para ampliar a capacidade energética em áreas estratégicas para o turismo, a indústria e a logística do estado. Na Costa Verde, a distribuidora está duplicando o circuito entre as subestações de Mambucaba e Paraty, o que alcançará mais de 50 mil clientes.
 
Energia para data centers. A Terranova fechou um contrato de mais de R$ 100 milhões com a Siemens Energy para desenvolver a infraestrutura de energia para os futuros campi de data centers da empresa no Brasil, que serão construídos em Campinas (SP). 

  • O contrato foi assinado em meio à confirmação da aprovação de acesso à rede elétrica pelo ONS. A entrega dos equipamentos está prevista para 2027.

Créditos de carbono renováveis. Localizado na Chapada Diamantina, na Bahia, o complexo eólico de Novo Horizonte, da Pan American Energy, recebeu o selo Diamond do GCC para gerar créditos de carbono. Com 423 MW de capacidade instalada, o empreendimento deve evitar a emissão de até 600 mil toneladas de CO2e por ano.

COP30 publica relatório. A Presidência da COP30 divulgou nesta terça (17/3) o Relatório Executivo da conferência realizada em Belém (PA) em novembro de 2025. O documento lista os principais resultados políticos e compromissos que orientarão o trabalho até novembro, quando o Brasil passará o bastão para Turquia e Austrália, presidentes da cúpula deste ano.

Nova crise no mercado de carbono. Gigantes do setor financeiro e empresas multinacionais utilizaram créditos de carbono de um polêmico projeto de preservação florestal no Pará para compensar emissões, denuncia o Wall Street Journal. Elas aposentaram os títulos mesmo após o projeto ser colocado sob investigação. (Reset)

Autonomia e Renda em TIC. Petrobras e Senai  lançaram uma nova vertente do programa Autonomia e Renda Petrobras voltada para Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). As vagas são destinadas aos jovens de 17 a 22 anos e mulheres, pessoas negras, transgêneros, transexuais e travestis serão priorizadas. 

  • O programa prevê a participação de mais de 10 mil jovens de todos os estados brasileiros na etapa inicial, que será em formato online. 

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