diálogos da transição

Governo aposta em cortar emissões sem frear petróleo

Plano Clima prioriza reduzir intensidade de carbono do setor energético sem impor limites à produção de petróleo e gás

Vista aérea vertical da sonda ODN-II (NS-42) que foi desmobilizada da Foz do Amazonas (Foto Divulgação)
Sonda ODN-II (NS-42) usada pela Petrobras na perfuração do primeiro poço (Morpho) da Foz do Amazonas (Foto Divulgação)

NESTA EDIÇÃO. Governo publica caderno definitivo do Plano Clima para mitigação no setor de energia.

Foco é na substituição da demanda por combustíveis fósseis, especialmente nos transportes.

Além de teto nas emissões do O&G, sem prejuízos à produção.


EDIÇÃO APRESENTADA POR:

Publicado na última sexta (13/3), o caderno de mitigação do Plano Clima manteve o roteiro apresentado para consulta pública no final de julho de 2025, como a meta de 800 MW de baterias até 2035 e o foco na redução de emissões do óleo e gás — sem perspectivas de limitar a produção.
 
O documento foi aprovado pelos ministérios que compõem o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) em dezembro, uma semana após o presidente Lula (PT) encomendar diretrizes para o mapa do caminho da transição brasileira.
 
Assim como a encomenda presidencial “para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis no país”, o Plano Clima de Energia foca na substituição da demanda — especialmente com biocombustíveis.
 
O caderno de mitigação é o detalhamento de como o país espera contribuir com sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, em inglês) ao Acordo de Paris até 2035.
 
O compromisso é mitigar entre 59% e 67% das emissões líquidas, o que significa reduzir as emissões de 2,04 bilhões de toneladas de CO2 equivalente atuais para 850 milhões de toneladas a 1,05 bilhão de toneladas no período. 
 
Em 2024, 42% das emissões do país foram decorrentes de mudança de uso da terra (desmatamento), 29% da agropecuária, 20% de energia, 5% de resíduos e 4% de processos industriais, de acordo com o Seeg.
 
No setor de energia, a opção foi por deixar espaço para aumentar emissões e mesmo reduzir a participação de renováveis na matriz elétrica, sob a justificativa de segurança energética.
 
Há previsão, por exemplo, de expansão da oferta e aproveitamento do gás natural, por meio do programa Gás para Empregar, como um “combustível de menor emissão de GEE entre os fósseis”.



O plano (.pdf) reforça a visão predominante no governo federal de que o “vilão” a ser combatido são as emissões e não o petróleo.

O documento traz como objetivo “manter ou reduzir as emissões nas atividades de exploração, produção, refino e transporte de petróleo e gás natural”. 

Uma das metas específicas é manter a intensidade de emissões do segmento de exploração e produção em 15 kg CO2e/boe (barril de óleo equivalente), tendo como referência o ano de 2022. A justificativa é que o Brasil já está abaixo da média global neste quesito.

Vale dizer que houve uma revisão neste ponto. No documento que foi para consulta pública, a meta para 2035 era reduzir em 5% a intensidade de emissões em relação a 2023.

O desenvolvimento da captura, transporte, uso e armazenamento de carbono (CCUS, em inglês) é listado como uma ação estruturante para o setor controlar sua intensidade.

Já no quadro de tendências até 2050, o governo sinaliza para a intensificação da transição energética para redução das emissões do setor de petróleo e gás natural, mas coloca como uma barreira geopolítica as “incertezas sobre a demanda internacional de petróleo e gás natural”.

O CIM também divulgou, nesta segunda (16/3), as estratégias de transição justa para ação do Plano Clima.
 
O documento (.pdf) lista 11 objetivos e 13 desafios para garantir que os custos e benefícios das ações de mitigação não aprofundem desigualdades históricas.
 
Um desses objetivos é reduzir a pobreza energética, com sistemas inclusivos.
 
Para isso, as diretrizes propõem a “reavaliação da estrutura de subsídios e políticas tarifárias, eliminando distorções que oneram os mais vulneráveis e favorecem fontes poluentes”.
 
Também há uma preocupação com o efeito sobre os trabalhadores da indústria fóssil, que precisarão ser realocados em outras atividades conforme setores como o do carvão aposentam seus ativos.
 
Neste sentido, há uma diretriz incluindo a criação de programas de requalificação profissional com metas afirmativas para mulheres, jovens e grupos sub-representados, além de estímulo ao empreendedorismo e “o acesso a financiamento para participação em cadeias de valor locais e descentralizadas, como a geração solar comunitária”.


Energisa capta R$ 1 bi. O grupo Energisa captou R$ 1,05 bilhão em debêntures do BNDES para investimentos em suas distribuidoras no Acre, em Mato Grosso e no Tocantins. Os recursos serão direcionados para substituição de equipamentos e conexão de novas unidades consumidoras à rede elétrica, entre outras demandas. 
 
Teste com B100. Volkswagen Caminhões e Ônibus e Amaggi iniciaram os testes com biodiesel puro (B100) em estradas do Centro-Oeste e do Norte do país. As empresas farão os testes em um caminhão por 12 meses, na rota típica de transporte de grãos realizada pela produtora, que conecta Sinop (MT) a Matupá (MT), e segue até Miritituba (PA).
 
Gás argentino. A Galp obteve autorização da ANP para importar até 20 milhões de m³/dia de gás natural da Argentina, por dois anos, via Bolívia. A Galp mira como mercado potencial os segmentos termelétrico, distribuidoras e consumidores livres.
 
Choque do petróleo. A Abiquim afirma que, até o momento, não há evidências de risco de desabastecimento de produtos químicos no Brasil em razão do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Os impactos mais relevantes, explica a associação, ocorrem especialmente nos mercados de energia, fertilizantes e logística marítima internacional.

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