Opinião

Transição, substantivo feminino

Não haverá uma transição energética verdadeiramente justa se ela não for capaz de absorver, em todas as suas esferas, o talento das mulheres, especialmente nas carreiras emergentes que estão desenhando a infraestrutura do futuro, escreve Veronica Vara

Veronica Vara é deputy CEO e chief HR & Communication Officer da EDF power solutions no Brasil (Foto Divulgação)
Veronica Vara é deputy CEO e chief HR & Communication Officer da EDF power solutions no Brasil (Foto Divulgação)

O setor de energia se encontra em uma fase de transformação histórica. Mais do que uma simples substituição de fontes fósseis por renováveis, a transição energética que vivenciamos hoje exige uma reestruturação profunda do capital humano.

Na gramática, a palavra transição é um substantivo feminino. Na prática do mercado, no entanto, as mulheres ainda lutam para encontrar seu espaço de liderança e decisão. 

Não haverá uma transição energética verdadeiramente justa se ela não for capaz de absorver, em todas as suas esferas, o talento das mulheres, especialmente nas carreiras emergentes que estão desenhando a infraestrutura do futuro.

No cenário global, as mulheres ocupam cerca de 32% dos empregos em tempo integral no setor de energias renováveis, segundo a Agência Internacional de Energia Renovável (Irena).

Índice relevante, sem dúvida, mas que permanece estagnado desde 2019, sugerindo que barreiras culturais e estruturais continuam a frear o progresso orgânico da representatividade.

No Brasil, os números são ainda mais desafiadores. Dados consolidados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) indicam que apenas 20% da força de trabalho no setor elétrico nacional é composta por mulheres.

O dado mais crítico, contudo, é a distribuição dessa força: enquanto 66% das mulheres no setor atuam em áreas administrativas, a presença feminina em cargos de alta liderança, como diretorias e conselhos, é de apenas 5,55%. Esse fenômeno, conhecido como afunilamento no topo, exclui pensamentos plurais justamente nos momentos mais estratégicos.

Para que vejamos mais mulheres no setor e em cargos estratégicos, precisamos enfrentar obstáculos que começam na educação e persistem no ambiente corporativo. O desestímulo às jovens nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática precisa ser combatido com programas de mentoria e visibilidade efetivos.

Além disso, a segurança no ambiente de trabalho é inegociável: um estudo da Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar (MESol), em parceria com o projeto Cities Finance Facility (CFF) de 2021, indica que mais de 70% das mulheres no setor solar já enfrentaram algum tipo de assédio ou discriminação.

Ambientes saudáveis e políticas de retenção são fundamentais para que o talento feminino permaneça e cresça na indústria energética.

Além dos desafios no mercado de trabalho, as mulheres ainda enfrentam obstáculos estruturais na sociedade. Embora a conquista de novos espaços represente avanço, a acumulação de papéis — profissionais, familiares e sociais — gera uma sobrecarga constante, muitas vezes invisível.

Por isso, é fundamental repensar a divisão de responsabilidades e promover condições mais justas e equilibradas para que essa presença em diferentes espaços não signifique excesso de trabalho, mas sim autonomia e reconhecimento.

Ao olharmos para 2026, o tema da ONU Mulheres — Direitos, Justiça e Ação para TODAS as mulheres — ressoa com força no setor de energia. É tempo de transformar compromissos em ações reais.

A transição energética exige flexibilidade, resiliência e inovação social, atributos intrínsecos à liderança feminina. O futuro da energia no Brasil será renovável por natureza, mas precisa ser feminino por uma questão de inteligência econômica e justiça social.

Somente ao integrar o potencial humano em sua totalidade seremos capazes de entregar a energia limpa e segura que o século XXI demanda. A transição é um substantivo feminino e, para ser completa, ela precisa ser protagonizada pelas mulheres.


Veronica Vara é Deputy CEO e Chief HR & Communication Officer da EDF power solutions no Brasil.

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