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Bioenergia leva contribuição ao mapa do caminho da COP30 — sem mulheres no palco ou no papel

Representantes da bioenergia entregaram proposta ao embaixador André Corrêa do Lago em evento com 14 homens no palco e nenhuma menção à diversidade de gênero no documento

Coalizão Biocombustíveis entrega contribuições ao presidente da COP30, André Corrêa do Lago, para mapa do caminho global (Foto Reprodução YouTube)
Coalizão Biocombustíveis entrega contribuições ao presidente da COP30, André Corrêa do Lago, para mapa do caminho global (Foto Reprodução YouTube)

Em uma cerimônia marcada pela presença masculina, o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania/SP) entregou ao embaixador André Corrêa do Lago a contribuição da Coalizão Biocombustíveis ao roteiro da presidência da COP30 para a transição dos combustíveis fósseis. 

A entrega ocorreu durante evento em São Paulo com representantes das indústrias de bioenergia e hidrogênio verde, na segunda (9/3). 

O documento (.pdf) é assinado pelas frentes parlamentares do Agronegócio (FPA), do Biodiesel (FPBio), do Etanol, e do Biogás e Biometano, além de associações de produtores desses biocombustíveis e do hidrogênio verde. 

Ao todo, quatorze homens brancos — e nenhuma mulher — subiram ao palco, representando essas organizações, para entregar a visão da bioenergia para o mapa do caminho da transição energética brasileira e global. 

A diversidade não fez falta apenas na foto oficial. O documento faz referência à inclusão social, porém em termos amplos e ligados ao conceito de “transição energética justa”, sem detalhar políticas específicas para o setor de energia ou biocombustíveis.

Um trecho da conclusão afirma que a transição energética deve integrar objetivos sociais:

“As políticas de transição devem integrar redução de emissões considerando a proteção ambiental, inclusão social, combate às desigualdades regionais e melhoria da qualidade de vida da população.”

Ou seja, o enfoque é macro-socioeconômico, não voltado diretamente à composição da força de trabalho do setor energético.

Uma única diretriz, entre mais de duas dezenas fala em capacitação, mas também de forma genérica: “Estruturação de programa de formação e capacitação profissional, de promoção do empreendedorismo e de inovação nos diferentes segmentos dos biocombustíveis”.

Essas ausências no mapa do caminho da bioenergia são preocupantes em um cenário onde mulheres e meninas aparecem entre as mais afetadas pelos impactos da mudança do clima.

Relatório das Nações Unidas estima que, até 2050, as mudanças climáticas podem empurrar até 158 milhões de mulheres e meninas para a pobreza (16 milhões a mais do que o número total de homens e meninos). 

Hoje, há 47,8 milhões de mulheres a mais do que homens enfrentando insegurança alimentar e fome no mundo.

O levantamento da ONU alerta que mulheres dependem mais dos recursos naturais, mas têm menos acesso a eles. Quando esses recursos se tornam escassos devido às mudanças climáticas, elas precisam trabalhar mais e percorrer distâncias maiores. 

Outro dado alarmante é que, enquanto dezenas de milhões de pessoas trabalham em empregos formais no setor de energia ao redor do mundo, cerca de 389 milhões de mulheres e meninas estão produzindo biomassa para atender às necessidades básicas de famílias mais pobres nos países em desenvolvimento, de acordo com pesquisa do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia (EUA).

Diversidade de gênero: não há 

A diversidade de gênero não aparece no documento, nem como objetivo nem como política para o setor de energia ou biocombustíveis.

Não há qualquer referência explícita a mulheres no setor energético, equidade, diversidade ou inclusão de minorias na força de trabalho.

No geral, o documento trata a transição energética principalmente sob perspectiva industrial, tecnológica e econômica, sem incorporar diversidade no mercado de trabalho.

Enquanto a dimensão social aparece mais como princípio geral de política pública, e menos como agenda de inclusão no setor.

No mundo, as mulheres também estão sub representadas na indústria renovável.

De acordo com a Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena, em inglês), as mulheres ocupam 32% dos empregos em tempo integral no setor — mesmo patamar de cinco anos atrás. 

Esses empregos, no entanto, concentram-se em funções administrativas, enquanto posições de alto nível de tomada de decisão são majoritariamente ocupadas por homens.

Enquanto elas representam 45% das funções administrativas em empresas de energia eólica e solar, entre outras, esse percentual despenca para 28% em vagas ligadas a STEM (como engenheiras, cientistas de dados e especialistas técnicos) e a apenas 22% dos empregos de média qualificação, como instalação de sistemas solares ou construção. 

Nos níveis mais altos de tomada de decisão, a presença feminina é ainda mais reduzida: 26% dos cargos de gerência intermediária e 19% dos altos executivos ou membros de conselhos.

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