RIO — A abertura do mercado de gás natural avançou nos últimos anos, mas a consolidação do novo modelo depende da conclusão da revisão das tarifas de transporte e da definição de regras claras para remuneração dos investimentos, disse o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Artur Watt, durante a gas week outlook 2026, em São Paulo, na terça (24/2).
O diretor-geral reforçou que a agência atua para dar previsibilidade ao setor. Assista à íntegra!
Segundo Watt, em 2026 a prioridade da agência é concluir a revisão tarifária, com a valoração da Base Regulatória de Ativos (BRA), a definição da receita máxima permitida e das tarifas aplicáveis.
A nova regulamentação prevê, além das tarifas anuais, modalidades de curto prazo e uma tarifa de longo prazo com desconto relevante, voltada a contratos de até dez anos, como no caso das térmicas do leilão de potência (LRCAP) e projetos industriais intensivos em gás.
O diretor defendeu que os modelos tarifários sejam ajustados à realidade brasileira.
“Ele tem que ser adaptado à realidade local, ao nosso cenário histórico”, afirmou, ao comentar debates sobre metodologias de cálculo.
Outra prioridade será a aprovação de projetos estruturantes de produção e de integração da infraestrutura de transporte, com impacto na ampliação da oferta.
“A gente precisa dobrar a nossa capacidade líquida”, disse Watt, ao diferenciar produção bruta de volume efetivamente escoado e disponível para consumo.
Segundo ele, a expansão da oferta passa pelo aumento do escoamento do pré-sal, pela importação e pela integração energética com países do Cone Sul, como a Argentina, além do avanço do biometano.
O diretor-geral ressaltou que os números de 2025 mostram que a abertura do mercado “já é uma uma realidade em andamento”.
“Temos grandes avanços marcantes no contexto do mercado brasileiro”, afirmou.
Watt citou o aumento de comercializadores autorizados, de 122 para 226; de carregadores, de 71 para 149; e de importadores, de 12 para 55.
O número de consumidores no mercado livre saltou de 8 para 90, com crescimento médio de 70% ao ano. Em 2025, foram registrados 1.700 contratos de compra e venda de gás natural, alta de 60% ante 2024.
O diretor também destacou a redução do market share da Petrobras, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde terminais privados e a produção terrestre vêm atuando como polos de dinamização do mercado.
Revisão tarifária e investimentos no centro da agenda
A ANP estruturou em 2025 um plano faseado para a revisão tarifária do ciclo 2026-2030.
Entre as medidas, está a publicação da Resolução 991/2026, que moderniza o regime de transporte e estabelece a contratação de capacidade por entrada e saída, em substituição ao modelo anterior.
A separação tende a ampliar a flexibilidade para produtores e grandes consumidores, segundo Watt.
Uma das definições mais aguardadas pelo mercado foi a taxa de retorno regulatória. A taxa real foi fixada em 7,63%.
“A gente também trouxe uma definição muito importante e muito cobrada pelo mercado, cobrada com razão, que era a taxa de retorno regulatório, baseada no custo médio ponderado de capital para esse ciclo regulatório”, afirmou.
De acordo com Watt, a fixação do WACC era condição para destravar novos investimentos.
O diretor-geral ressaltou também que a preservação dos investimentos deve caminhar junto com moderação tarifária. Segundo ele, é preciso garantir remuneração adequada, evitando tanto subremuneração quanto sobreposição de receitas que possam onerar consumidores.
Principais pontos tratados pelo diretor-geral da ANP
- Nova Lei do Gás e abertura do mercado, com expansão de comercializadores, importadores e consumidores livres.
- 2025 registra 1.700 contratos de compra e venda e avanço da concorrência, com queda do market share do agente dominante no Norte e Nordeste.
- ANP estrutura a revisão tarifária 2026–2030, ampliando previsibilidade e segurança regulatória para o transporte.
- A Resolução 991/2026 moderniza o regime, adota contratação por entrada e saída e fixa taxa de retorno de 7,63%.
- Definição do WACC regulatório e novas regras destravam investimentos e projetos estruturantes.
- Estratégia mira dobrar a produção líquida de gás, ampliar acesso às infraestruturas, integrar o biometano e reforçar a conexão com Argentina e Cone Sul.