NESTA EDIÇÃO. Para dar certo, transição energética e adaptação precisam caminhar juntas.
Plano Clima aponta que a expansão da energia limpa exige enfrentar riscos como secas prolongadas, enchentes e queda na produtividade agrícola.
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Redução nas ofertas de hidroeletricidade e biocombustíveis, ameaça ao abastecimento de energia e combustíveis para sistemas isolados, alterações repentinas na demanda de eletricidade e apagões mais frequentes estão entre os dez principais riscos climáticos no setor de energia listados no Plano Clima Adaptação.
Os cadernos foram publicados na véspera do Carnaval, com 16 metas e 38 ações prioritárias de adaptação para a matriz energética brasileira.
A intenção é indicar mudanças estruturais que precisam ocorrer para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas às mudanças climáticas, já que é preciso garantir a expansão da oferta de energia limpa.
“O controle do aumento dos custos da tarifa de energia, com impacto direto às populações de baixa renda, está entre os principais focos de atuação do setor, de modo a garantir a adequada transição energética, com segurança, de modo justo e inclusivo para toda a sociedade”, explica o plano.
Renovável & vulnerável
De acordo com o documento (.pdf), a renovabilidade da matriz brasileira a torna mais vulnerável, tanto em relação às secas quanto às chuvas intensas, eventos que estão sendo prolongados e cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas.
Ondas de calor e descargas atmosféricas (raios) também colocam o sistema elétrico sob pressão.
Em 2024, por exemplo, o Brasil ficou 0,79ºC mais quente, segundo análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Com a maior parte do país registrando anomalias de temperatura acima de 2°C, quase 600 municípios relataram cerca de R$ 20 bilhões em prejuízos relacionados aos eventos climáticos.
Entre os casos emblemáticos estão o Rio Grande do Sul, cujas inundações em maio de 2024 causaram danos de mais de R$ 1 bilhão somente às redes elétricas – além de deixar centenas de milhares de pessoas desalojadas.
Biocombustíveis na corda bamba
Grande aposta do Brasil para descarbonizar sua frota — quiçá a internacional — a produção de biocombustíveis está entre as mais expostas aos riscos climáticos, já que depende fortemente da agricultura.
“A produção agrícola é fortemente impactada pelas condições climáticas, o que a torna extremamente sensível a fenômenos climáticos atípicos e extremos, por exemplo, o El Niño, a La Niña, as chuvas abaixo/acima da média histórica, as secas ou as estiagens prolongadas”, observa o caderno setorial do Plano Clima.
O governo reconhece que, com a perspectiva de aumento dos eventos climáticos atípicos, existe o risco de redução da oferta de biocombustíveis no país. E cita como exemplo os efeitos da La Niña que foram sentidos pelos produtores por três anos consecutivos.
A indústria sucroalcooleira é um exemplo desse paradoxo. Enquanto aposta em uma demanda aquecida nas próximas duas décadas, o setor se vê diante da necessidade de dobrar sua produtividade para dar conta do mercado que emerge com a transição dos combustíveis fósseis.
Mas a mudança climática é uma pedra no caminho. O Plano cita estudo do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem) que estima queda de 20% na produção de cana-de-açúcar na região centro-sul nos próximos dez anos devido a eventos extremos.
A região, formada por São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Paraná, é responsável por quase 90% da produção nacional de etanol de cana-de-açúcar.
Apesar da aposta — e do risco — alto no setor de biocombustíveis, apenas duas metas de adaptação miram o setor.
Uma propõe “produzir, sistematizar, integrar e disponibilizar informações sobre alterações climáticas e medidas de adaptação” no prazo até 2035.
A outra “gerenciar crises de abastecimento de combustíveis” e “integrar ações de P&D visando aumentar a resiliência da oferta de biomassa, a eficiência energética e o desenvolvimento de novas tecnologias de produção”.
Cobrimos por aqui
Curtas
Influência na IEA. Os Estados Unidos conseguiram remover as mudanças climáticas das principais prioridades da Agência Internacional de Energia (IEA), após uma tensa reunião ministerial em Paris na última semana.
- No resumo divulgado pela presidência, o combate às mudanças climáticas não consta entre as prioridades da agência, que escolheu focar em segurança energética, resiliência, minerais críticos e sistemas de eletricidade. (Politico)
Minerais críticos. Brasil e Índia assinaram no sábado (21/2) um acordo para cooperação em minerais críticos e terras raras, durante a visita do presidente Lula (PT) ao país asiático.
- “Queremos atrair a cadeia de processamento dessa riqueza para o território brasileiro, sem fazer opções excludentes. O acordo que assinamos hoje com a Índia vai, exatamente, nessa direção”, disse Lula em declaração após o anúncio.
Inteligência climática. Brasil e Índia lançaram no sábado (21/2) uma iniciativa que pretende utilizar a Infraestrutura Pública Digital para acelerar a implementação de ações climáticas em nações do Sul Global. A Rede Aberta de Inteligência Planetária (OPIN) apoiará a integração de informações como monitoramento em tempo real de emissões e sistemas de energia renovável.
Redata na volta do Carnaval. O presidente em exercício e ministro, Geraldo Alckmin (PSB), disse nesta sexta-feira (20/2) que o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter será um dos temas tratados por Lula na reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevista para ocorrer em março.
- A medida provisória que institui o Redata perde a validade esta semana, mas o governo aposta que a discussão vai avançar por meio do projeto de lei 278/2026, protocolado pelo deputado José Guimarães (PT/CE) no começo do mês.
Salvaguardas. Após reação negativa de representantes do agronegócio ao acordo Mercosul-União Europeia, o governo anunciou que está trabalhando na edição de um decreto para regulamentar as salvaguardas em acordos comerciais firmados pelo Brasil.
- O anúncio foi feito pelo presidente em exercício e ministro, Geraldo Alckmin. A medida deverá abranger os acordos comerciais atuais e futuros celebrados pelo país.
R$ 1,3 bi para o Mover. O Senai vai destinar R$ 1,3 bilhão ao setor automotivo pelo Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover) até 2029. Serão cinco frentes de atuação: formação profissional; consultoria; P&D; apoio à criação de centros de competência; e parcerias internacionais.
Explosão na Vibra. A prefeitura de Volta Redonda (RJ) informou que moradores que vivem em um raio de 300 metros da base da Vibra Energia foram evacuados após a explosão de um tanque de combustível na madrugada de domingo (22/2). A medida foi adotada por segurança durante a operação de retirada do álcool que restou no reservatório atingido.
Crise hídrica. A Superintendência-Geral do Cade arquivou o inquérito que investigava a Petrobras por suposta conduta de “discriminação anticompetitiva” no fornecimento de GNL para termoelétricas durante a crise hídrica de 2020-2021. A investigação mostrou que a piora das condições de fornecimento teve forte correlação com a valorização do GNL no mercado internacional.

