Nos últimos anos, o hidrogênio verde foi alçado ao centro da estratégia energética e industrial brasileira.
Estados estruturaram marcos legais, criaram hubs portuários, promoveram missões internacionais e assinaram memorandos com desenvolvedores globais. A narrativa era clara: o Brasil se tornaria um dos grandes exportadores mundiais de moléculas verdes.
No entanto, à medida que os projetos se aproximaram da fase de execução, um padrão passou a se repetir: atrasos prolongados, revisões de escopo, postergação de decisões finais de investimento (FID) e, em alguns casos, desistências explícitas.
O episódio recente envolvendo a Solatio, no Piauí, ilustra esse fenômeno. A suspensão judicial, a revogação de licenças e, sobretudo, a ausência de garantia de acesso à energia inviabilizaram o empreendimento. Mas o caso está longe de ser isolado.
No Ceará, o Complexo do Pecém — com destaque para as iniciativas da australiana Fortescue e da francesa Qair — avançou em engenharia e articulações comerciais, mas ainda enfrenta incertezas relevantes relacionadas à conexão elétrica e à consolidação de contratos de offtake.
No Rio de Janeiro, o Porto do Açu trabalha com horizontes de maturação de longo prazo, refletindo a complexidade do modelo. Na Bahia, projetos de amônia e hidrogênio também passaram por reavaliações significativas.
O resultado é um setor marcado por um alto volume de anúncios, mas um baixo número de projetos que efetivamente alcançaram a fase de execução (FID).
A análise dos principais projetos revela que os entraves não são predominantemente locais, mas sistêmicos.
O primeiro e mais relevante é o acesso à infraestrutura elétrica. Em uma análise mais profunda, os projetos de hidrogênio verde exigem fornecimento contínuo, competitivo e previsível.
Isso depende da expansão da transmissão, das regras de conexão e da coordenação do sistema — responsabilidades da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Ministério de Minas e Energia (MME). Sem garantia efetiva de acesso, não há “bancabilidade”.
Outro ponto de destaque, é a fragilidade da demanda contratada, sendo indicada como importante gargalo.
Em muitos casos, os projetos avançaram com base em memorandos de entendimento, sem contratos firmes de longo prazo, com garantias e estrutura de preço compatível com financiamento de projeto.
Além disso, o risco socioambiental não pode ser negligenciado.
Empreendimentos em áreas sensíveis exigem pactos prévios robustos com comunidades, órgãos ambientais e o Ministério Público, além de soluções técnicas claras para o uso da água e proteção de ecossistemas.
Quando esse trabalho é postergado, a judicialização tende a inviabilizar cronogramas. Há, ainda, o problema dos cronogramas excessivamente otimistas. Hubs industriais integrados demandam anos de maturação.
A lógica do anúncio político e da visibilidade midiática nem sempre é compatível com a realidade da engenharia, do licenciamento e da estruturação financeira.
O hidrogênio verde também perdeu parte do protagonismo midiático porque o setor entrou na fase crítica da execução.
No Brasil e no exterior, diversos projetos foram redimensionados quando confrontados com custos reais, desafios logísticos e incertezas regulatórias; dessa forma, a transição da narrativa da promessa para a da entrega expôs a complexidade do modelo.
Não se trata de fracasso tecnológico, mas de maturação institucional. Os governos estaduais, em sua maioria, agiram corretamente ao disputar essa agenda.
Criaram marcos regulatórios, organizaram áreas industriais, promoveram articulação internacional e mobilizaram seus instrumentos de política econômica, entretanto, os fatores decisivos da viabilidade permanecem concentrados no plano federal como transmissão, acesso à rede; instrumentos de demanda; certificação e coordenação setorial, ou seja, fatores externos ao controle ou planejamento local, independentes de ações de coordenação e investimento local.
Ações de desenvolvimento de grande porte, como no caso o energético ou elétrico depende de uma sintonia entre os diferentes níveis da administração pública.
Quando esses elementos não avançam de forma integrada, os estados ficam expostos, independentemente da excelência do ambiente local que estruturaram. Para reverter esse quadro, é necessária uma mudança de escala na coordenação:
No âmbito federal:
- Planejamento da transmissão orientado por hubs industriais, com cronogramas vinculantes;
- Instrumentos nacionais de indução de demanda, como leilões de produtos verdes, contratos por diferença e compras estruturantes; e
- Regulação clara para acesso, certificação e rastreabilidade.
No âmbito estadual:
- Consolidar zonas industriais com infraestrutura compartilhada;
- Estruturar governança socioambiental preventiva; e
- Priorizar derivados e usos locais, como amônia, metanol, fertilizantes e combustíveis sustentáveis, reduzindo a dependência exclusiva da exportação.
O hidrogênio verde é frequentemente apresentado como solução natural para o curtailment (corte de geração) das renováveis no Nordeste.
No entanto, essa visão é incompleta. O curtailment indica excedente momentâneo. Eletrolisadores precisam operar com alta taxa de utilização anual para diluir Capex, e a operação restrita a períodos de sobra tende a elevar o custo por tonelada.
O hidrogênio integra a solução sistêmica, mas apenas se combinado com expansão de infraestrutura e contratos firmes.
O Brasil dispõe de vantagens relevantes: base renovável competitiva, escala territorial, localização estratégica e capital humano qualificado. O problema central não é potencial. É coordenação.
A experiência recente demonstra que não basta anunciar projetos. É necessário integrar política energética, industrial, ambiental e logística, com governança clara e previsibilidade.
Sem isso, o país continuará produzindo expectativas e frustrações, além de que o diagnóstico superestimado promove comprometimento e frustação de expectativas com forte impacto negativo para o setor e para os governos que balizaram suas comunicações locais.
O hidrogênio verde segue sendo estratégico. Mas exige maturidade institucional, planejamento de longo prazo e compromisso efetivo com a execução.
Jean Paul Prates é chairman do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne).
Darlan Santos é presidente do Cerne.
