Leilão de potência

MME precisa corrigir preços-teto do LRCAP tanto para térmicas novas quanto existentes, calcula a Thymos

Consultoria avalia que preço-teto sugerido pelo MME está descolado da realidade dos custos de capital do setor elétrico

Chaminés e instalações metálicas da termelétrica a gás Santa Cruz, incluída na MP 1.031/2021, da privatização da Eletrobras (Foto Divulgação Furnas)
Termelétrica a gás Santa Cruz (Foto Divulgação Furnas)

O Ministério de Minas e Energia (MME) precisa corrigir os preços-teto dos leilões de reserva de capacidade (LRCAPs) de março não só para viabilizar novas termelétricas a gás natural, mas também remunerar adequadamente as usinas existentes, de acordo com as contas da Thymos Energia.

A consultoria calcula que o teto deveria ser 62,5% maior para térmicas novas; e 42,8% maior para as existentes.

Após as repercussões negativas do mercado aos valores definidos pela pasta, o ministro Alexandre Silveira afirmou nesta quarta-feira (11/2) que o MME pretende corrigir até o fim do dia os preços-teto do LRCAP.

Na avaliação da Thymos, os valores sugeridos inicialmente pelo governo estão descolados da realidade atual dos custos de capital do setor elétrico – inflacionados, hoje, pelo boom de investimentos em projetos termelétricos para atendimento a data centers, nos Estados Unidos. 

A consultoria calcula que os preços-teto adequados para o LRCAP de 18 de março, voltado para contratação de hidrelétricas e termelétricas a carvão mineral e a gás natural, deveriam ser:

  • de R$ 2.600/kW.ano para novas termelétricas, ante o patamar sugerido de R$ 1.600/kW.ano;
  • e de R$ 1.600/kW.ano para usinas existentes, frente aos 1.120.000/MW.ano indicados.

Usinas existentes não estão imunes à inflação

Para o CEO da Thymos Energia, João Carlos Mello, a diferença, hoje, é incompatível com a realidade dos custos de capital do setor – mesmo para as térmicas existentes.

O consultor alega que, embora as usinas existentes já estejam muitas vezes amortizadas, elas precisam passar por investimentos em modernização.

E que esses projetos de reforma também não estão imunes ao cenário de aquecimento global da cadeia de suprimentos e que afeta, sobretudo, os novos investimentos. 

Agentes do setor também relatam que usinas existentes, em fase final de vida útil, têm recebido ofertas para revenda de equipamentos, para suprir a demanda de projetos de data centers nos EUA – um custo de oportunidade que precisa ser precificado no LRCAP. na visão do dono dessas térmicas.

Eneva, Petrobras e a Âmbar Energia (J&F), donas dos três maiores parques de geração a gás do país, estão entre favoritas ao leilão e miram o LRCAP como oportunidade de recontratação de suas usinas existentes.

Eneva e Petrobras também já manifestaram publicamente a intenção de viabilizar projetos greenfield (novos) no leilão.

O risco da descontratação das térmicas

A Thymos acrescenta, em sua análise, que o principal risco de um fracasso no leilão é a descontratação das termelétricas existentes – que tem repercussões não só sobre a segurança do sistema elétrico, mas também sobre as tarifas do sistema de gasodutos de transporte.

Foi o temor sobre as tarifas dos gasodutos, aliás, que levou o MME a desenhar o leilão com a separação de produtos, reservando dois deles (2026 e 2027) apenas para térmicas existentes e conectadas à malha de transporte de gás.

Até 2028, cerca de 14,3 GW podem ficar sem contratos, reduzindo a disponibilidade de geração despachável para atendimento em momentos críticos.

A Thymos indica a necessidade de contratar entre 23 GW e 30 GW de capacidade adicional para manter a segurança operativa do sistema, tornando inevitável a entrada de novas usinas térmicas e hidrelétricas.

Consumidores veem preços dentro do esperado

Abrace, que representa os grandes consumidores, destacou em nota na terça-feira (10/2), após a divulgação dos preços-teto originalmente calibrados pelo MME, que a atualização monetária dos valores de certames anteriores permitia o entendimento de que os preços anunciados não se distanciam do que se esperava.

A associação também lembrou que há espaço para realização de outros leilões ainda ao longo desse ano, caso os resultados dos certames de março sejam insuficientes. 

Além disso, a Abrace afirmou que as opções para a segurança do sistema precisam levar em consideração todos os efeitos na rede, como o aumento dos cortes de geração.

E citou o armazenamento em baterias e hidrelétricas reversíveis como alternativas.

A consultoria Clean Energy Latin America (Cela), especializada em renováveis, aliás, afirmou que os preços-teto divulgados já viabilizam a participação de baterias no leilão, dados os custos atuais de investimento e operação desses sistemas. 

O governo já indicou que pretende realizar um LRCAP exclusivo para baterias em abril

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