diálogos da transição

O que o show do Bad Bunny nos diz sobre a transição latino-americana?

Em Porto Rico, problemas estruturais mantêm a dependência fóssil e escancaram a exclusão de parte da população do acesso à energia

O que o show do Bad Bunny nos diz sobre a transição latino-americana?
Foto: reprodução YouTube NFL Bad Bunny's Apple Music Super Bowl Halftime Show

NESTA EDIÇÃO. Mesmo com trilhões investidos globalmente em transição, América Latina ainda enfrenta desafios para garantir suprimento de energia. 

Caso de Porto Rico evidencia como infraestrutura precária e alto custo de capital atrasam a descarbonização em economias de renda média e baixa.


EDIÇÃO APRESENTADA POR:

A apresentação do rapper porto-riquenho Bad Bunny no maior evento esportivo dos EUA no último fim de semana conquistou a internet com as referências que homenageiam a América Latina e Caribe.
 
Do chapéu de palha às cadeiras de plástico tão típicas de botecos e churrascos que conhecemos, o show foi carregado de alfinetadas sobre o momento político que os Estados Unidos vivem (CNN). Para quem é do setor de energia, outros símbolos também chamaram a atenção.
 
Já próximo do final, Bad Bunny e seus bailarinos dançam sobre explosivas linhas de transmissão, enquanto canta a música “El Apagón”.
 
O artista denuncia os apagões constantes que Porto Rico sofre desde o Furacão Maria, em 2017, com uma música que fala sobre negligência, deslocamento, e uma ilha tratada como colônia descartável. (Rolling Stone)
 
Porto Rico é um território não incorporado dos EUA que fica a 1,6 mil km (cerca de 2h30 de vôo) de Miami. 
 
Mas a proximidade com o país que no ano passado investiu US$ 378 bilhões em transição energética (BloombergNEF) — apesar de uma redução significativa dos incentivos públicos da gestão de Donald Trump — só revela disparidades.
 
A atual crise na rede elétrica levou a ilha caribenha a revisar suas metas de transição energética, eliminando o objetivo de chegar a 40% de energia renovável até 2025 e 60% até 2040. (BNAmericas)
 
Além de permitir que a termelétrica a carvão de Guayama, de 450 MW, continue operando até 2032.
 
A meta de 100% de energia renovável até 2050 segue inalterada. A prioridade, contudo, é a estabilidade no fornecimento, hoje majoritariamente atendido por combustíveis fósseis.
 
Fazer a transição requer grandes investimentos em infraestrutura, o que esbarra no custo de capital.
 
Não é um caso isolado. Educação, infraestrutura e custo de capital são os três principais obstáculos para nações da América Latina e Caribe destravarem seu potencial e surfar a onda da economia de baixo carbono, a exemplo de mercados ricos, segundo o Banco Mundial.
 
Ao mesmo tempo em que a ALC é cobiçada pela Europa e Ásia por seus recursos minerais e energéticos — minerais críticos e hidrogênio são exemplos — parte de sua população ainda está à margem de serviços básicos.



Na COP30, em Belém, Brasil e Colômbia tomaram iniciativas para trazer a discussão sobre o afastamento dos combustíveis fósseis para a América Latina, em estratégias distintas que buscam, acima de tudo, garantir que as necessidades energéticas locais sejam levadas em conta nos acordos internacionais.
 
E abandonar os fósseis não é uma tarefa fácil ou simples.
 
Estimativas (.pdf) da Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde) indicam que serão necessários cerca de 1.000 GW adicionais de capacidade de geração elétrica até 2050, para um cenário de emissões líquidas zero, combinado a 80 GW em bancos de baterias.
 
O custo é calculado em aproximadamente US$ 1,5 trilhão por ano, dos quais 90% corresponderiam à capacidade renovável.
 
Isso requer uma reorientação do capital global, hoje concentrado basicamente em três mercados.
 
Dos US$ 2,3 trilhões investidos em transição energética em 2025, mais de 70% ocorreu na China (US$ 800 bilhões), União Europeia (US$ 455 bilhões) e EUA (US$ 378 bilhões), mostra a BNEF.
 
Na ALC, o Brasil é o único que aparece entre os 10 com maior volume de investimentos em transição, com US$ 38 bilhões em 2025 — bem distante dos principais mercados.


Acordo Mercosul-UE. A análise pelo Congresso Nacional do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi interrompida, nesta terça-feira (10/2), após pedido de vista do deputado Renildo Calheiros (PCdoB/PE). A reunião da Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul deverá ser retomada no dia 24 de fevereiro, a partir das 10h.
 
Leilão das térmicas. A diretoria da Aneel aprovou nesta terça-feira (10/2) os editais dos leilões de reserva de capacidade (LRCAPs) e concluiu, assim, uma das últimas etapas formais para viabilizar a realização dos certames, previstos para março. A divulgação dos preços-teto da concorrência, no entanto, sacudiu os ânimos do mercado.
 
De olho nos reservatórios. As chuvas registradas nas últimas semanas melhoraram a situação dos reservatórios das hidrelétricas, confirmou o ONS. Ainda assim, o atraso no período úmido segue impactando as negociações de contratos, com aumentos nos preços.
 
Distribuição de gás. O governo do Estado do Rio de Janeiro decidiu que vai abrir uma licitação para as concessões de gás canalizado da CEG e CEG Rio, atualmente operadas pela Naturgy e cujos contratos vencem em julho de 2027. A Naturgy havia solicitado em 2024 a prorrogação dos contratos por mais 30 anos, o que deu início ao processo formal de avaliação da renovação.
 
Combustíveis puxam inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro ficou em 0,33%, exatamente a mesma variação registrada em dezembro de 2025. O grupo Transportes, com 0,6% de variação, foi o que teve maior impacto.

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