O Brasil se destaca na transição energética com matriz energética composta por 50% de fontes renováveis, quando a média global é de 14,3% e de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 13,2%. A participação de renováveis na matriz elétrica brasileira é de quase 90% [1].
Como líder da transição energética, o Brasil avançou ainda mais de 2023 até agora. Foram aprovados e fortalecidos marcos legais importantes para impulsionar e acelerar a substituição de combustíveis fósseis, como, por exemplo:
- Política Nacional de Transição Energética (PNTE);
- Combustível do Futuro;
- Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio);
- Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono;
- Minerais estratégicos para transição energética;
- Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover);
- Mercado de Carbono;
- Marco Legal das Eólicas Offshore; e
- Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten) [2].
Além dos marcos legais, foram tomadas decisões importantes pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) como o aumento da mistura do etanol na gasolina C de 27% para 30% e do biodiesel, que terminou 2022 com 10%, e foi para 15%, em 2025, com perspectivas de aumento, conforme a Lei do Programa Combustível do Futuro [3].
Também estão em discussão as regulamentações do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), os mandatos para combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e para tecnologia de captura e armazenagem de carbono (CCS), todos previstos na Lei do Programa Combustível do Futuro.
Há avanços também no Marco Legal do Hidrogênio de Baixo Carbono, cujo decreto está na reta final de aprovação, bem como na política de minerais estratégicos para transição energética.
O avanço da eletrificação veicular no Brasil pode ser notado nas ruas com maior presença de veículos eletrificados e pelos dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).
No comparativo de janeiro de 2026 com o mesmo mês de 2025, houve aumento de venda em 50% de veículos híbridos e de 126% de elétricos, o que mostra que o Brasil aderiu à eletrificação veicular [4].
A liderança brasileira na transição energética se consolidou com uma série de eventos internacionais como o G20, Clean Energy Ministerial (CEM), Brics, COP30, dentre outros.
Além da transição energética, foram obtidos avanços importantes também no combate à pobreza energética e o atendimento ao ODS 7 da Organização das Nações Unidas (ONU) que trata de energia limpa e acessível como destaque para o programa Gás do Povo que visa substituir lenha e álcool para cozimento que causam acidentes pelo botijão de GLP, que é confiável e seguro, com emissões que não acarretam danos à saúde pública [5].
Com todos esses avanços, o Ministério de Minas e Energia (MME) solicitou à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a avaliação sobre o pico da demanda de petróleo no Brasil.
Os dados mostram que, mesmo com todos esses esforços, o Brasil ainda não vê o pico da demanda até 2050. O atual consumo de derivados sai de 2,33 milhões de barris por dia para 3,05 milhões de barris por dia, no melhor cenário [6].
Atualmente, o Brasil deixa de consumir 400 mil barris por dia de combustíveis fósseis com as políticas públicas vigentes e pode deixar de consumir até 1 milhão de barris por dia em 2050 [6].

Os caminhos para manter a demanda de derivados de petróleo nos patamares atuais na faixa de 2,3 milhões de barris por dia também são apontados no estudo da EPE com a implementação da eletromobilidade acelerada que pode reduzir o consumo de derivados de petróleo em mais 530 mil barris por dia [6].
Assim, reduzir a oferta de petróleo e gás natural, ao se buscar o pico de oferta e não de demanda, só vai ameaçar a segurança energética brasileira, pois vamos continuar a depender dos derivados, fazendo com que o Brasil deixe de ser exportador de petróleo e volte a ser importador para refinar em seu parque de refino e abastecer seu mercado interno.
Em 2025, o Brasil produziu 3,77 milhões de barris por dia, aumento de mais de 400 mil barris por dia em relação a 2024.
As exportações de petróleo aumentaram de 1 milhão e 746 mil barris por dia em 2024 para 1 milhão e 923 mil barris por dia (aumento de 10%).
Esse aumento de exportação contribui para a balança comercial brasileira, aprecia a nossa moeda frente ao dólar e representa maior estabilidade frente aos desafios geopolíticos do setor energético [7].
Importa ressaltar que o setor de exploração e produção de petróleo e gás natural responde apenas por 1% das emissões do total nacional, sendo a maior parte das emissões quando seus derivados são utilizados para gerar energia e movimentar o país [8].
Este argumento reforça a necessidade de se buscar substituir combustíveis fósseis no seu uso (pico da demanda) e não a sua oferta.
Desta forma, restringir a oferta de petróleo e gás natural tem contribuição mínima para atender a Contribuição Nacionalmente Determinada (em inglês, NDC).
A COP28 trouxe duas metas muito importantes relacionadas à busca pelo pico da demanda por combustíveis fósseis:
- Triplicar renováveis: A meta é triplicar a capacidade global de energia renovável até 2030, alcançando pelo menos 11 terawatts (TW);
- Dobrar eficiência: O objetivo é dobrar a taxa global média de melhoria de eficiência energética de cerca de 2% para mais de 4% ao ano até 2030.
Na COP30, o Pledge de Belém (Belém 4x) foi lançado com apoio de diversos países. Este compromisso visa quadruplicar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis (incluindo etanol, biodiesel, biometano e SAF) até 2035.
Aumento de eficiência, aumento da oferta de renováveis e quadruplicar a oferta de biocombustíveis, principalmente para setores de difícil abatimento, como transporte aéreo e marítimo, geram a redução do consumo de combustíveis fósseis e farão que Brasil atinja o pico da demanda antes de 2050.
Como demonstrado pela EPE, a eletrificação acelerada é fundamental para reduzir o consumo de derivados em 530 mil barris por dia.
O mapa do caminho representa a oportunidade de estabelecer metas claras e prazos de como se dará a estratégia brasileira para se atingir o pico da demanda.
Propõe-se estratégia para cada modo de transporte, combinando-se várias iniciativas, como apresentado no quadro abaixo. Não existe uma única alternativa.
| Modo de transporte | Iniciativas |
| Transporte de cargas e passageiros | Aumento do teor de biodiesel Fomento ao biometano e gás natural (GNL e GNC) Fomento ao diesel verde Maior utilização de coprocessado Eletrificação veicular acelerada Renovação de frota Incentivos a veículos movidos a B100 |
| Veículos leves | Fomento ao E100 Aumento do teor de etanol na gasolina C Maior utilização de biometano Eletrificação veicular acelerada |
| Transporte aéreo | Fomento ao Combustível Sustentável de Aviação (SAF) Incentivo ao coprocessado Melhoria da eficiência das aeronaves Fomento ao hidrogênio de baixo carbono para produção de combustíveis sintéticos |
| Transporte marítimo | Incentivo à utilização de biocombustíveis Incentivo ao coprocessado Fomento ao hidrogênio de baixo carbono para produção de combustíveis sintéticos |
Em adição, a tecnologia de captura e estocagem geológica de carbono deve fazer parte da estratégia para reduzir as emissões com possibilidade de produção de biocombustíveis com pegada líquida negativa de carbono.
O Brasil fez o dever de casa na matriz elétrica e precisa buscar manter os atuais patamares de renovabilidade.
É preciso, para tanto, reduzir os cortes de geração de energia renovável (curtailment), cujo excesso, pode ser direcionado para geração de hidrogênio de baixo carbono que possui múltiplas utilizações como, por exemplo, produção de fertilizantes verdes, metanol verde, amônia, dentre outros.
Os leilões de baterias combinados ao leilão de reserva de capacidade na forma de potência (LRCAP), a serem realizados pelo MME, são fundamentais também para manter a segurança da rede com o avanço das renováveis e, também, é preciso fomentar a energia nuclear que possui vantagens por ser limpa e firme.
O recente programa de energia geotérmica que aproveita a expertise da indústria de petróleo é uma ferramenta que deve ser desenvolvida.
Trata-se de energia renovável e firme que pode ter contribuição importante para o país.
Além disso, existem oportunidades para o Brasil com os data centers, que precisam combinar múltiplas fontes de energia, como nosso país tem feito historicamente.
Essa multiplicidade que confere segurança ao nosso sistema e é possível combinar fontes fósseis com renováveis.
A demanda energética será crescente e não podemos correr riscos com nossa segurança energética por escolher restringir a oferta de energia.
Podemos ser cada vez mais renováveis e exportar o excedente de energia de origem fóssil com a vantagem que nosso petróleo possui pegada de carbono inferior à média global.
A Noruega tem sido bastante exitosa neste modelo com a produção de aproximadamente 2 milhões de barris por dia, sendo líder na eletrificação veicular.
Vale ressaltar, que, segundo estudo contratado pelo IBP, a intensidade de emissões do segmento de Upstream (E&P) caiu para 15,69 kg CO₂e/BOE (quilogramas de CO₂ equivalente por barril de óleo equivalente), próximo da meta do Plano Clima de 15,00 kg CO₂e /BOE para 2030. O Brasil está abaixo da média global do setor, registrada em 17,10 kg CO₂e/BOE (BP Energy Outlook – Mundo) [9].
Por fim, petróleo e gás natural são muito mais do que geração de energia. É matéria-prima para fertilizantes, produtos petroquímicos e tudo que está a nossa volta.
Tive oportunidade de visitar a petroquímica saudita (Sabic) e ver várias iniciativas de pesquisa, desenvolvimento e inovação que absorverão parte da demanda que será reduzida para mobilidade.
Os produtos petroquímicos são usados para fazer drones, carrocerias de veículos elétricos, baterias, vergalhões, entre outros. O Brasil precisa estar nesta fronteira tecnológica.





Pietro Mendes é diretor da Agência Nacional do Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras e Secretário Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia. O artigo representa suas opiniões pessoais.
Referências
[1] Balanço Energético Nacional (BEN). Disponível em <https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/balanco-energetico-nacional-2025>. Acessado em 9/2/2026.
[2] Brasil, líder mundial da transição energética. Disponível em <https://www.gov.br/mme/pt-br/brasil-lider-mundial-na-transicao-energetica/apresentacao>. Acessado em 9/2/2026.
[3] E30 e B15 entram em vigor em todo o Brasil. Disponível em <https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/e30-e-b15-entram-em-vigor-em-todo-o-brasil>. Acessado em 9/2/2026.
[4] Mercado de eletrificados autos. Disponível em <https://www.fenabrave.org.br/portal/files/2026_01_02.pdf>. Acessado em 9/2/2026.
[5] Diagnóstico sobre a carência de acesso ao cozimento limpo no Brasil. Disponível em <https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-907/Caderno%20Cozimento%20Limpo%20EPE.pdf>. Acessado em 9/2/2026.
[6] Relevância do setor de petróleo e gás natural para a transição energética. Disponível em <https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-809/Bloco%203%20-%20Pol%C3%ADticas%20de%20biocombust%C3%ADveis%20e%20eletrifica%C3%A7%C3%A3o%20sobre%20demanda%20de%20derivados.pdf>. Acessado em 9/2/2026.
[7] Dados estatísticos de produção, importação e exportação de petróleo. Disponível em <https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/dados-estatisticos>. Acessado em 9/2/2026.
[8] Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa (SEEG). Emissões Brutas de Gases do Efeito Estufa. Disponível em <https://www.plataforma.seeg.eco.br/?_gl=1*ni8ezl*_ga*MTUyMDIxNjYxNy4xNzcwNjUzMzM0*_ga_XZWSWEJDWQ*czE3NzA2NTMzMzQkbzEkZzAkdDE3NzA2NTMzMzQkajYwJGwwJGgw>. Acessado em 9/2/2026.
[9] Setor de óleo e gás brasileiro diminui emissões e se aproxima da meta climática de 2030 sete anos antes. Disponível em <https://www.ibp.org.br/hub-de-conhecimento/noticias/setor-de-oleo-e-gas-brasileiro-diminui-emissoes-e-se-aproxima-da-meta-climatica-de-2030-sete-anos-antes>. Acessado em 9/2/2026.
