O Brasil começou 2026 com um problema conhecido, mas que voltou a ganhar força: a falta de chuva nas bacias que abastecem os principais reservatórios do país.
Com menos água armazenada, cresce a pressão sobre o despacho térmico e, com isso, o preço da energia. Em janeiro deste ano, o Preço da Liquidação das Diferenças (PLD) tem oscilado acima de R$ 300/MWh, mais de três vezes o valor de um ano atrás.
Embora as chuvas da terceira semana de janeiro trouxeram algum alívio pontual, com um episódio de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), o cenário macro do período úmido não é favorável.
A tendência é que os corredores de umidade se formem de maneira desorganizada, com chuva em pancadas isoladas, pouco eficientes para manter a umidade do solo e os níveis dos reservatórios.
Além disso, a segunda metade do verão deve registrar temperaturas acima da média, aumentando a demanda por resfriamento e a evaporação da água do solo.
O problema não é apenas a quantidade de chuva, mas principalmente a localização e o padrão das precipitações.
As chamadas chuvas de verão são comuns no Sudeste e no Centro-Oeste e costumam causar impactos imediatos nas cidades, como alagamentos e enxurradas.
Esses episódios podem transmitir a impressão de que há água em volume suficiente para recompor os reservatórios, mas a dinâmica dessas precipitações limita seu efeito sobre os mananciais.
Esse tipo de chuva, de forma convectiva, ocorre principalmente em função do calor intenso e da alta umidade do ar, sem a atuação de sistemas meteorológicos organizados, como frentes e cavados.
Por isso, são precipitações rápidas, intensas e localizadas, muitas vezes afastadas das áreas de cabeceira e de captação dos rios que alimentam os reservatórios.
A distribuição irregular da chuva faz com que volumes elevados registrados em curto intervalo de tempo não se traduzam, necessariamente, em aumento do nível dos sistemas de abastecimento.
Outro fator decisivo é o estado do solo. Após longos períodos de estiagem, a terra absorve rapidamente as primeiras precipitações, direcionando a água para camadas mais profundas, o que ajuda a recarregar aquíferos, mas não eleva imediatamente o nível dos reservatórios.
Somado a isso, as altas temperaturas aceleram a evaporação, reduzindo ainda mais a água disponível.
A chuva “boa” para reservatório é aquela que ocorre por vários dias seguidos, mesmo com volumes moderados, permitindo que o solo absorva a água gradualmente e se torne mais permeável.
Quando os reservatórios não se recuperam, o sistema depende mais de usinas térmicas, mais caras, poluentes e sensíveis ao preço de combustíveis.
Isso eleva o Custo Marginal de Operação (CMO), que representa o custo adicional para gerar energia em cada megawatt-hora extra, e pressiona o PLD, refletindo diretamente nos preços negociados no mercado livre e, consequentemente, na conta do consumidor.
O ciclo hidrológico sempre foi o termômetro do setor elétrico brasileiro. Mesmo com a diversificação da matriz energética desde 2010, as hidrelétricas continuam sendo a espinha dorsal do sistema.
Atualmente, elas representam quase 50% da capacidade instalada do Sistema Interligado Nacional (SIN), com 108.633 MW, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A relação entre chuva e preço, embora ainda relevante, deixou de ser tão direta quanto em anos anteriores.
Isso porque a reformulação recente do par de CVaR no modelo de precificação tornou o sistema mais aversivo ao risco, sustentando níveis de CMO e PLD mais elevados mesmo em cenários com volumes realizados e projetados que, historicamente, levariam a uma acomodação maior dos preços.
Nesse contexto, o volume de chuva não impacta apenas a quantidade de energia disponível, mas também determina o custo e a estabilidade de todo o sistema.
Em cenários de precipitação irregular, prever e monitorar o tempo deixa de ser apenas uma ferramenta técnica e passa a ser um instrumento estratégico para reduzir riscos e orientar decisões de contratação, exigindo do setor elétrico maior planejamento, agilidade e resiliência.
João Hackerott é CEO da Tempo OK.
