A expansão da matriz de energia renovável no Brasil, impulsionada principalmente pelas fontes intermitentes eólica e solar, enfrenta um desafio operacional e financeiro crescente: o curtailment (corte de geração).
Esse fenômeno refere-se à redução ou interrupção forçada da geração de energia elétrica, determinada pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), com o objetivo de evitar sobrecargas quando o sistema de transmissão não consegue escoar toda a energia produzida.
De acordo com a regulação setorial atual (ainda em discussão no contexto de Consulta Pública do Ministério de Minas e Energia), apenas uma parte dos eventos de restrição de operação por curtailment estão sujeitos à possibilidade de ressarcimento, pois isso depende da causa do corte.
Quando a redução ocorre por indisponibilidade externa à usina, como problemas na rede de transmissão, há compensação financeira. Já cortes feitos para manter a segurança do sistema ou por excesso de oferta de energia não são ressarcidos.
Por serem intermitentes e mais flexíveis tecnicamente, as fontes renováveis são as mais afetadas, o que compromete a eficiência e a viabilidade econômica dos projetos.
Em 2024, segundo levantamento da Volt Robotics, estima-se que o setor tenha sofrido perdas superiores a R$ 1,6 bilhão, com o corte de mais de 14,6 terawatts-hora (TWh) em 1.445 usinas.
Diante desse cenário adverso, alguns players vêm estudando e implementando alternativa que busca alocar energia produzida por projetos renováveis, mas não injetada na rede em razão das restrições de escoamento: utilizar a referida energia para minerar criptomoedas, como o Bitcoin.
A mineração é o processo de validação de transações em redes descentralizadas por meio de algoritmos criptográficos.
No caso do Bitcoin, utiliza-se o sistema Proof-of-Work (PoW), que exige alto poder computacional e consumo energético significativo.
Os mineradores competem para resolver cálculos complexos, e o primeiro a encontrar a solução recebe uma recompensa em Bitcoins.
Essa atividade, altamente intensiva em eletricidade, torna-se especialmente atrativa em locais com energia excedente e de baixo custo.
Além de sua natureza energética, a mineração apresenta características operacionais que a torna ideal para absorver excedentes: é uma carga flexível, interruptível e altamente sensível ao preço da energia.
Os equipamentos podem ser ligados ou desligados rapidamente, sem perda de trabalho, e sua operação pode ser ajustada conforme a disponibilidade energética.
Essa flexibilidade é particularmente útil em regiões com curtailment frequente, onde parte da geração não pode ser escoada pela rede.
Apesar do potencial, a mineração de Bitcoin é alvo de críticas, sobretudo pelo seu impacto ambiental.
Estima-se que o consumo energético global da atividade tenha alcançado 119,7 milhões de MWh, com emissões de carbono superiores a 90 milhões de toneladas de CO₂e.
Há também preocupações com o consumo de água e a geração de lixo eletrônico, que pode ultrapassar dezenas de milhares de toneladas por ano.
Críticos apontam que o consumo energético da mineração é comparável ao de países inteiros, como Argentina ou Holanda.
No entanto, estudos comprovam que, quando alimentada por fontes renováveis, especialmente energia não aproveitada, os impactos ambientais são significativamente reduzidos.
A atividade pode, inclusive, contribuir para a descarbonização da matriz energética e estimular a inovação em tecnologias mais eficientes.
A proposta de utilizar energia não aproveitada para mineração de criptomoedas transforma um passivo em ativo.
Usinas eólicas e solares frequentemente enfrentam sobreoferta, especialmente em horários de baixa demanda ou em regiões com gargalos na transmissão.
Em vez de desperdiçar essa energia, ela pode ser redirecionada para alimentar mineradoras, que operam de forma flexível e podem ser ativadas ou desativadas conforme a disponibilidade energética. Experiências internacionais reforçam a viabilidade do modelo.
No Texas, mineradoras já operam em sinergia com o sistema elétrico, participando de programas de resposta à demanda e ajustando seu consumo conforme os picos de carga.
Essa integração permite que a mineração funcione como uma “bateria virtual”, estabilizando a rede e evitando restrições de escoamento.
No Japão, foram instalados rigs de mineração próximos a fazendas solares para aproveitar energia não utilizada, com estimativas de geração de bilhões de ienes em receita anual. Na Rússia e no Cazaquistão, a mineração ocorre através da utilização de gás natural barato.
No Paraguai e na Argentina, há estudos para atração de mineradoras visando o aproveitamento de energia hidrelétrica excedente, enquanto em El Salvador e Uruguai a mineração com energia renovável já é realidade.
Para as geradoras, representa uma nova fonte de receita, reduz o desperdício energético e melhora a viabilidade econômica de projetos renováveis.
Para o sistema elétrico, contribui para a estabilidade da rede, atuando como carga interruptível em momentos críticos. E para o meio ambiente, reduz emissões ao substituir fontes fósseis por renováveis.
Além disso, a atividade pode atrair investimentos em infraestrutura digital, estimular a expansão da capacidade renovável e integrar o setor elétrico à economia digital.
Mineradoras podem se instalar próximas às usinas, evitando perdas de transmissão e otimizando a operação.
No entanto, para que essa solução seja viável no Brasil, é necessário enfrentar desafios regulatórios e jurídicos. Atualmente, não há regulamentação específica para a atividade, tratada como prestação de serviços de processamento de dados.
Um dos pontos centrais para viabilizar juridicamente a proposta é garantir que o consumo ocorra no modelo behind-the-meter, ou seja, diretamente na usina, antes da energia ser injetada na rede.
Esse modelo pode contornar os cortes impostos pelo ONS e permite a monetização da energia que seria descartada. Além disso, reduz custos de transmissão, elimina encargos tarifários e facilita a operação em regiões com infraestrutura limitada.
A mineração de criptomoedas com energia não aproveitada representa, portanto, uma solução inovadora para o problema do curtailment no setor elétrico brasileiro.
Ao transformar perdas em receita, ela fortalece a matriz renovável, reduz impactos ambientais e integra o setor à economia digital.
Sua implementação exige atenção aos aspectos jurídicos, especialmente o modelo behind-the-meter, e aos desafios técnicos e econômicos da atividade.
Com planejamento, regulamentação e incentivo à inovação, o Brasil pode liderar uma nova fronteira na gestão energética sustentável.
Ana Carolina Katlauskas Calil é sócia da área de energia do Cescon Barrieu.
