A YPFB Energia do Brasil, trader criada pela estatal boliviana, quer vender não só gás natural da Bolívia, mas também da Argentina no mercado brasileiro.
A companhia fechou um acordo com a Tecpetrol para aquisição de gás de Fortín de Piedra – um dos principais ativos de gás não-convencional em Vaca Muerta, na Bacia de Neuquén, na Argentina.
E obteve este mês autorização do governo argentino para trazer ao Brasil até 500 mil m³/dia em 2026, na modalidade interruptível.
O preço pactuado com a Tecpetrol é de US$ 5,6 o milhão de BTU na fronteira entre Argentina e Bolívia, durante a janela de verão (outubro a abril); e US$ 7,79 o milhão de BTU no restante do ano, de acordo com informações contidas no pedido de autorização.
YPFB reserva capacidade no Gasbol
A YPFB Energia do Brasil tem contrato com a Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG) para acessar o Gasbol.
Ao todo, reservou o direito de injetar, este ano, 120 mil m³/dia em Corumbá (MS) – a principal porta de entrada do gás boliviano (e argentino) no mercado brasileiro.
O número está em linha com a capacidade contratada pela YPFB no Gasbol no segundo semestre de 2025.
O gás importado pela companhia tem como principal destino a Edge, do grupo Cosan. A YPFB Energia do Brasil, no entanto, também chegou a ter a Shell como cliente no mercado brasileiro em 2025.
O segundo passo da YPFB
A comercialização de gás argentino no mercado brasileiro é um segundo passo do reposicionamento da YPFB dentro do novo contexto da integração do Cone Sul.
Única rota existente de integração de Vaca Muerta com os principais centros de consumo do Brasil, a Bolívia se estabeleceu como intermediária entre os dois países vizinhos.
Primeiro, criou o trânsito internacional como uma nova linha de negócios para a YPFB, que passou a atuar como agregadora de gás em trânsito – ou seja, como responsável pela recepção, programação, transporte e entrega de gás argentino ao Brasil pelo sistema integrado de transporte da Bolívia.
A comercialização internacional do gás argentino é trabalhada pela companhia como uma segunda fase desse reposicionamento.
Negociar contratos de compra e venda de gás proveniente de outros países (como Argentina), para comercialização no mercado internacional, é, aliás, uma das novas atribuições da YPFB, pelo Decreto Supremo 5.206/2024 – o mesmo que criou o trânsito internacional como nova linha de negócios da estatal boliviana.
YPFB mira diversificação de clientes
A criação de uma trader de gás no Brasil faz parte de um reposicionamento da YPFB frente à abertura do mercado brasileiro e ao novo contexto da integração do Cone Sul – com o boom do gás de Vaca Muerta, os volumes antes exportados pela Bolívia à Argentina passam a ser deslocados para o Brasil.
A YPFB vem buscando aumentar a sua carteira de clientes para além da Petrobras, sua parceira histórica.
A estatal boliviana tem se aproximado, nesse contexto, de comercializadoras privadas como MTX, Edge e Tradener; e, em paralelo, tenta desenvolver o seu próprio braço de trading no Brasil.
Desde 2019, no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro (PL), quando o Novo Mercado de Gás começou a ganhar forma, a YPFB tem manifestado interesse em vender diretamente o gás boliviano no mercado brasileiro.
A companhia tem autorização da ANP para exercer a atividade de comercialização no Brasil desde 2019, mas deu seus primeiros passos mais concretos na virada de 2024 para 2025. Pelo baixo volume ainda movimentado pela comercializadora boliviana, a iniciativa é entendida no mercado como um primeiro teste da YPFB.
Num primeiro momento, a empresa mira oportunidades de vender o próprio gás boliviano no mercado brasileiro, mas, agora, passa a mirar também o gás argentino.
A YPFB tem autorização da ANP para trazer, para o mercado brasileiro, 2 milhões de m³/dia da Bolívia – e outros 5 milhões de m³/dia da Argentina.
A YPFB Energia do Brasil tem contrato de importação de gás com a própria YPFB, na Bolívia, e, agora, com a Tecpetrol na Argentina.
Bolívia sob nova direção
O setor de óleo e gás boliviano está, desde o fim de 2025, sob nova direção. A vitória de Rodrigo Paz nas eleições presidenciais do ano passado pôs fim a um ciclo de duas décadas da esquerda no poder — reflexo, em parte, da ruptura entre Evo Morales e seu sucessor Luis Arce, e a implosão do Movimento ao Socialismo (MAS).
Maurício Medinacelli foi nomeado, em novembro, como ministro de Hidrocarbonetos e Energia; e Yussef Akly Flores assumiu a presidência da YPFB com a missão de recuperar as reservas de gás — um dos pilares da balança comercial boliviana.
O desafio é atrair investimentos para o setor de energia de um país que, ao longo das últimas décadas, viu declinar suas reservas de gás natural e que convive também com crises de abastecimento de combustíveis.
A YPFB anunciou, no fim de 2024, pela primeira vez em seis anos, o seu certificado de reservas provadas e confirmou, oficialmente, o declínio de seus volumes nos últimos anos
Ao todo, a companhia possuía 4,5 TCF (trilhões de pés cúbicos) em 31 de dezembro de 2023, uma queda de 58% em relação a 2017.
A Wood Mackenzie estima que a Bolívia ainda deve se manter este ano como fornecedor crucial do mercado brasileiro e que as exportações devem ultrapassar 10 milhões de m³/dia em 2026. A expectativa, no entanto, é que, se não conseguir recuperar suas reservas, a Bolívia deixe de ser exportadora no início da próxima década.
Rodrigo Paz estabeleceu uma agenda de reformas para o setor e prioriza a promulgação de uma nova lei de hidrocarbonetos para incentivar o investimento privado. O governo também planeja reduzir os subsídios para o mercado interno.
