Opinião

Descarbonização exige estratégia além do curto prazo do gás

Decisões industriais seguem, muitas vezes, ancoradas no custo do trimestre, e não na estrutura necessária para garantir resiliência nos anos seguintes, escreve Gustavo Marchezin

Gustavo Marchezin é diretor comercial da ComBio (Foto divulgação)
Gustavo Marchezin é diretor comercial da ComBio (Foto divulgação)

Os ajustes recentes nos preços do gás natural voltaram a ganhar centralidade nas decisões da indústria.

Reduções médias trimestrais anunciadas ao final de 2025 alteraram a percepção de custo energético em diferentes segmentos, influenciando avaliações sobre investimentos e projetos de médio e longo prazo.

Trata-se de um movimento típico de um mercado estruturalmente sensível a variáveis como câmbio, Brent, demanda global e decisões geopolíticas.

No estado de São Paulo, em especial nas regiões mais industrializadas, os ciclos de reajuste das distribuidoras chegam inevitavelmente à ponta do cliente.

Esses movimentos reforçam que a alta volatidade é uma característica comum no cenário das fontes fósseis.

O preço do gás responde a fatores que escapam ao controle das empresas consumidoras, como conflitos internacionais, decisões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) ou oscilações no mercado internacional de gás natural liquefeito (GNL).

A recente redução tarifária superior a 28% trouxe alívio imediato para parte dos consumidores conectados ao mercado cativo.

O mesmo efeito não se aplica, necessariamente, àqueles que migraram para o mercado livre, o que abre espaço para debates regulatórios e jurídicos sobre a origem e a distribuição desses ajustes.

Diante de um cenário de preços mais baixos, é compreensível que projetos de transição energética sejam reavaliados.

Ainda assim, essa reação levanta uma questão central: a descarbonização está sendo tratada como uma diretriz estratégica ou como uma decisão condicionada às oscilações conjunturais do mercado energético?

Preço e estratégia operam em horizontes distintos. Séries históricas de petróleo, gás e câmbio mostram que janelas de preço raramente se sustentam ao longo do tempo.

Apesar disso, decisões industriais seguem, muitas vezes, ancoradas no custo do trimestre, e não na estrutura necessária para garantir previsibilidade, competitividade e resiliência nos anos seguintes.

No caso da energia térmica, essa escolha é particularmente sensível. A indústria planeja capacidade produtiva, contratos e compromissos ambientais com horizontes longos.

Subordinar decisões estruturais a movimentos conjunturais tende a produzir um efeito recorrente de postergação. O “vamos esperar mais um pouco” que, silenciosamente, acumula custos e oportunidades perdidas.

Análises regulatórias indicam que parcela relevante da recente redução tarifária decorreu da chamada conta gráfica, mecanismo criado para compensar, ao longo do tempo, diferenças entre o custo real do gás e o valor repassado à tarifa.

Apenas na deliberação mais recente, o componente de recuperação da conta gráfica respondeu por cerca de R$ 0,70 por metro cúbico, dentro de um desconto total próximo a R$ 0,90.

Especialistas alertam que esse movimento pode gerar um rebote tarifário no médio prazo, reforçando o caráter conjuntural do alívio observado.

Essa incerteza tende a se intensificar com o avanço da agenda regulatória. O Plano Clima, que sucede a lei do carbono, deverá estabelecer métricas setoriais, regras e penalidades mais claras.

Ainda que nem todos os detalhes estejam definidos, é razoável assumir que as exigências de redução da pegada de carbono se tornarão mais rigorosas nos próximos anos, e com isso a pressão de custos a quem se mantém no fóssil é dada como certa.

Há também uma dimensão financeira cada vez mais relevante. Empresas com menor intensidade de carbono tendem a acessar capital em condições mais favoráveis, atender às exigências de cadeias globais e ampliar mercados.

A descarbonização deixa de ser apenas um compromisso ambiental e passa a ser um vetor direto de competitividade.

Nada disso implica ignorar o papel do gás natural ou de outras rotas tecnológicas. A transição energética será plural.

Eletrificação, biometano e biomassa terão funções complementares, conforme o processo industrial e o contexto regional. Ou seja, decisões baseadas exclusivamente no preço do momento são, por definição, frágeis.

No Brasil, a biomassa ocupa posição singular. A combinação entre vocação agrícola, disponibilidade de resíduos e tecnologia madura permite reduções imediatas de emissões, com previsibilidade de custos e sem transferir complexidade operacional para a indústria.

A transição energética industrial não será linear. Haverá ruídos, ajustes e aparentes contradições. Adiá-la, frequentemente, significa tomar uma decisão mais cara.

Enquanto se espera pela condição perfeita, a regulação avança, o capital se reposiciona e o tempo cobra seu preço.


Gustavo Marchezin é diretor comercial da ComBio.

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