Corredor estratégico

Interesse dos EUA na Groenlândia está ligado ao comércio de óleo e gás de China e Rússia no Ártico

Volumes transportados pela Rota do Mar do Norte atingiram recordes recentes, sobretudo com destino à China

Dinamarca reforça presença militar na Groenlândia. Na imagem, Fragata da Marinha Real Dinamarquesa. Foto: Marinha Dinamarquesa
Dinamarca reforça presença militar na Groenlândia. Na imagem, Fragata da Marinha Real Dinamarquesa. Foto: Marinha Dinamarquesa

RIO — As recentes ameaças reiteradas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de anexar a Groenlândia expõem o interesse norteamericano de barrar o avanço acelerado dos fluxos de petróleo e gás entre Rússia e China ao longo da Rota do Mar do Norte (NSR), no Ártico.

A região vem se tornando um corredor estratégico que ganha importância à medida em que o degelo amplia sua navegabilidade e as sanções ocidentais empurram Moscou para mercados asiáticos.

Nos últimos dias, Trump adotou um tom mais agressivo em relação ao território autônomo dinamarquês, afirmando que a Groenlândia é vital para a segurança dos EUA diante da “ameaça” da Rússia e China. 

O presidente anunciou tarifas de 10% sobre importações de oito países europeus a partir de 1º de fevereiro, com elevação para 25% em junho, afirmando que as medidas só seriam suspensas com “a compra completa e total da Groenlândia”.

Segundo Trump, a Dinamarca “não conseguiu fazer nada” para conter a presença russa na região.

“A OTAN vem dizendo à Dinamarca, há 20 anos, que ‘vocês precisam afastar a ameaça russa da Groenlândia’. Infelizmente, a Dinamarca não conseguiu fazer nada a respeito. Agora chegou a hora, e isso será feito!!!”, escreveu o presidente em sua rede social.

Em outra publicação, afirmou que “a China e a Rússia querem a Groenlândia, e não há nada que a Dinamarca possa fazer a respeito”, sugerindo que apenas os Estados Unidos seriam capazes de “defender” o território.

Trump disse que os EUA fariam isso “do jeito fácil” ou “do jeito difícil” e reforçou que o país precisa “possuir” a Groenlândia para impedir que Moscou e Pequim avancem sobre o Ártico. 

A reação europeia foi imediata, com a Dinamarca enviando tropas adicionais ao território e países da Otan deslocando forças para exercícios militares.

O Ártico como rota de energia fora das sanções

Por trás das ameaças, um dos principais fatores de preocupação dos EUA é a consolidação do Ártico como rota alternativa para o comércio de petróleo e gás russo, especialmente gás natural liquefeito (GNL), em direção à Ásia. 

Desde 2022, as sanções impostas ao petróleo e ao gás russos reduziram drasticamente as exportações para a Europa, acelerando o redirecionamento dos fluxos para a China.

A utilização da rota no Ártico pela “frota fantasma” russa teve um aumento expressivo entre 2024 e 2025, transformando-se em um corredor crucial para contornar sanções ocidentais. 

Os volumes transportados pela Rota do Mar do Norte atingiram recordes recentes, sobretudo com destino à China. 

Para Washington, trata-se de um corredor energético que opera, em grande medida, à margem do alcance direto das sanções, enfraquecendo sua eficácia e ampliando a autonomia da Moscou e Pequim.

Esse movimento ganhou novo impulso em novembro do ano passado, quando Rússia e China aprofundaram sua cooperação na Rota do Mar do Norte.

O acordo, firmado entre a estatal russa Rosatom e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China, formalizou um plano de ação abrangente para transformar a rota em uma artéria logística estruturada entre a Ásia e a Europa.

A estatal russa Rosatom, tradicionalmente associada ao setor nuclear, vem desenvolvendo uma frota de quebra-gelos com propulsão nuclear, além da gestão da infraestrutura portuária e da regulação para navegação na região.

Groenlândia rica em petróleo e minerais críticos

É nesse contexto que a Groenlândia ganha destaque.

A localização no Alto Norte permite monitorar e potencialmente interferir no tráfego entre o Atlântico Norte e o Ártico, funcionando como um gargalo estratégico para as rotas marítimas que conectam Rússia e Ásia.

Com o degelo ampliando a janela de navegação, a relevância desse controle tende a crescer nos próximos anos.

Além da geografia, a ilha também abriga recursos naturais que reforçam o interesse norteamericano

Estimativas do Serviço Geológico dos EUA indicam cerca de 31 bilhões de barris de óleo equivalente em recursos tecnicamente recuperáveis no leste da Groenlândia, uma área ainda pouco explorada devido a desafios extremos de infraestrutura, clima e logística. 

Até hoje, apenas 25 poços exploratórios foram perfurados, sem descobertas comerciais, mas o potencial permanece no radar.

“A exploração e produção de petróleo na Groenlândia não é para os fracos de coração. Em contraste com a enorme — embora decadente — indústria petrolífera da Venezuela, o setor de hidrocarbonetos da Groenlândia mal começou a ser explorado”, afirmam especialistas da Wood Mackenzie

“Embora o país tenha um alto potencial subterrâneo e seja uma área de fronteira pouco explorada com condições fiscais atraentes, sua localização no Ártico representa desafios extremos para os exploradores”.

A Groenlândia tem depósitos relevantes de terras raras, além de lítio, nióbio, tântalo, zircônio, cobre, grafite e urânio. 

Autoridades americanas veem esses recursos como uma possível alternativa à dominância chinesa nas cadeias globais de suprimento, essenciais para tecnologias de defesa e de transição energética.

Na prática, porém, a exploração enfrenta obstáculos significativos. Cerca de 80% da ilha é coberta por gelo.

Existem apenas duas minas em operação e qualquer projeto de grande escala exigiria investimentos maciços em energia, transporte e mão de obra especializada. 

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