RIO — O governo do Reino Unido realizou, na quarta (14/1), o maior leilão de eólicas offshore já feito na Europa, com a contratação de 8,4 GW de nova capacidade instalada. A expectativa é que o leilão destrave cerca de £ 22 bilhões (R$ 158 bilhões) em investimento privado.
O governo ressaltou que acelerar o investimento em energia limpa produzida no país reduz a exposição do Reino Unido a mercados globais voláteis de combustíveis fósseis, que registraram disparadas de preços em 2025. Um exemplo foi o conflito Irã-Israel, que fez os preços subirem mais de 15% em uma semana.
“Esta é uma vitória histórica para aqueles que querem que a Grã-Bretanha se sustente por conta própria, controlando sua própria energia, em vez de depender de mercados controlados por petroestados e ditadores”, secretário de Energia, Ed Miliband.
O resultado da chamada Allocation Round 7 (AR7) consolida o país como um dos principais polos globais da energia eólica em alto-mar e sinaliza confiança política e regulatória em um momento de incertezas para o setor em várias partes do mundo, como avalia Ben Backwell, CEO do Global Wind Energy Council (GWEC).
“Esses resultados mostram que o argumento econômico para a energia eólica offshore está mais forte do que nunca. O Reino Unido garantiu uma nova era de geração de eletricidade ao menor preço possível, em um momento em que a demanda por eletricidade e por essa nova capacidade de geração está aumentando”.
A Grã-Bretanha corre para atender ao aumento da demanda por eletricidade — que deve mais do que dobrar até 2050.
Um dos pontos centrais do AR7 foi o preço de exercício (strike price) de £ 91 (R$ 655) por megawatt-hora, o que, segundo o governo britânico, representa um custo 40% abaixo quando comparado a construção e operação de uma nova usina a gás natural no país.
“As contas de luz diminuirão para consumidores e empresas, enquanto o setor em crescimento cria milhares de empregos em todo o país à medida que a cadeia de suprimentos se expande”, comenta Backwell.
RWE leva 6,9 GW
A RWE garantiu 6,9 gigawatts de capacidade eólica offshore no AR7, em parceria com a KKR.
A RWE é uma das maiores empresas de energia renovável do mundo, e a KKR, uma das principais empresas de investimento globais. A parceria de longo prazo visa a implementação conjunta dos projetos Norfolk Vanguard East e Norfolk Vanguard West.
No acordo, a KKR terá uma participação de 50% em cada projeto, e ambas as empresas serão responsáveis pelo desenvolvimento, construção e operação conjunta dos parques eólicos.
“Estamos muito satisfeitos por termos conseguido garantir contratos de longo prazo para cinco projetos na AR7. Além disso, estamos entusiasmados em unir forças com a KKR como nossa parceira estratégica nos projetos eólicos offshore Norfolk Vanguard East e Norfolk Vanguard West”, afirmou Markus Krebber, CEO da RWE AG.
Cenário global
O volume contratado supera todos os leilões anteriores realizados no continente europeu e ocorre em um contexto desafiador para a indústria eólica offshore global, marcada pelo cancelamento ou adiamento de projetos em países desenvolvidos, aumento de custos, gargalos nas cadeias de suprimento e instabilidade regulatória.
Também ocorre após o fracasso do AR5, no qual nenhum projeto de eólica offshore foi contratado. Na última rodada, o AR6, houve uma recuperação que recolocou o setor de pé, com a contração de 5,3 GW.
Nos Estados Unidos, o setor enfrenta ainda um ambiente de hostilidade política. O governo de Donald Trump tem promovido uma ofensiva retórica e administrativa contra projetos de eólicas offshore, incluindo revisões de licenças e entraves a empreendimentos já em andamento, o que levou à judicialização em alguns casos.
Já no Brasil, o governo Lula (PT) arrisca abrir mão do primeiro leilão para cessão de áreas destinadas a projetos de eólicas offshore, inicialmente esperado para 2026.
Agentes do setor avaliam que a decisão representa a perda de uma janela estratégica de oportunidades, justamente em um momento em que investidores globais buscam novos projetos para alocar capital, diante da revisão de políticas energéticas e do aumento do risco regulatório nos Estados Unidos.
