Questões climáticas extremas, como ondas de calor, ciclones extratropicais, tempestades severas e longos períodos de seca seguidos por chuvas violentas, vêm testando a resiliência das redes de distribuição em todo o país.
Os efeitos desses eventos se repetem em diferentes estados, quedas de árvores sobre fiações, rompimento de cabos, transformadores sobrecarregados, subestações alagadas e equipes insuficientes para atender simultaneamente a milhares de chamados emergenciais.
Com a urbanização intensa e a ocupação irregular de áreas vulneráveis, as redes aéreas, que já operam no limite, tornam-se ainda mais expostas.
Assim, o que antes era considerado um “acidente ocasional” hoje faz parte do calendário anual de riscos das concessionárias.
Diante desse cenário, a necessidade de adaptação do setor é evidente.
As empresas de distribuição precisam evoluir em três eixos, previsibilidade, resposta rápida e soluções estruturais duradouras.
Prever significa trabalhar com modelos climáticos mais robustos, cruzar dados meteorológicos com informações sobre a rede e antecipar pontos frágeis.
A ação rápida envolve ampliar equipes, melhorar a logística de deslocamento em situações críticas, reforçar estoques de materiais e operar com centros de controle realmente integrados.
Já a solução efetiva passa por modernização: automação do sistema, instalação de equipamentos que religam circuitos sem intervenção humana, redes subterrâneas em trechos estratégicos, microgrids para serviços essenciais e reforço da vegetação urbana de maneira planejada.
A grande questão é, quem paga essa conta? Modernizar o setor elétrico é caro.
Transformar redes aéreas em subterrâneas demanda obras complexas; ampliar equipes e bases operacionais exige investimentos permanentes; instalar novos equipamentos inteligentes implica custos altos de aquisição e manutenção.
Em algum nível, parte desse valor tende a ser incorporado às tarifas, pois o modelo brasileiro de regulação permite que investimentos reconhecidos como necessários sejam recuperados ao longo do ciclo tarifário.
No entanto, o desafio é equilibrar o interesse público com a sustentabilidade financeira das empresas, evitando que cada evento climático resulte em aumentos automáticos para o consumidor.
Nesse contexto, o papel das agências reguladoras torna-se decisivo.
Cabe a elas definir parâmetros mínimos de desempenho, fiscalizar prazos de restabelecimento, auditar investimentos e aplicar penalidades quando houver falhas evitáveis.
A regulação precisa ser firme, mas também moderna o suficiente para estimular inovação e permitir que as concessionárias adotem tecnologias mais resilientes.
Não se trata apenas de punir, mas de orientar a evolução do setor diante de uma nova realidade climática.
Continuar reagindo apenas depois do desastre já não é uma opção. O Brasil precisa avançar para um modelo de distribuição mais inteligente, robusto e preparado.
E isso exige ação conjunta, empresas que invistam de forma estratégica, governo que apoie políticas de resiliência urbana, sociedade que entenda os desafios e um órgão regulador que garanta, de forma equilibrada, que os serviços melhorem sem transformar a tarifa em um peso insustentável.
A transição para um setor elétrico mais resiliente não é apenas técnica, é também política, econômica e social.
O futuro da energia no país depende da capacidade de todos os agentes entenderem que eventos climáticos extremos já deixaram de ser exceção.
Hoje, são parte do sistema. E o sistema precisa mudar para acompanhá-los.
Marília Brilhante é diretora da Energo Soluções em Energias.
