A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela amplia o fôlego da indústria petrolífera e reconfigura a agenda de transição energética.
Ao mesmo tempo, reforça a política industrial como instrumento geopolítico num cenário em que quem cria demanda e define cadeias industriais são os polos de poder. Os demais países passam a orbitar esse tabuleiro.
Esse cenário, somado à urgência climática, exige que o Brasil foque no que tem de melhor: expandir sua produção industrial com baixas emissões de carbono.
Os conflitos armados que marcaram as últimas décadas, como a Guerra do Golfo e do Iraque, as intervenções na Líbia e Síria, e, mais recentemente, a guerra na Ucrânia, estiveram associados, pela perspectiva geopolítica, ao fomento da indústria armamentista de grandes potências e disputas por recursos estratégicos, em especial o petróleo, e infraestrutura energética.
Agora, o protagonismo do petróleo e da indústria bélica se mantém, mas o cenário adquire outras camadas.
À frente de uma economia que perdeu densidade industrial, o governo Trump encontra no complexo bélico, um dos únicos setores em que os EUA mantêm supremacia produtiva mundial inconteste, um instrumento para gerar demanda em cascata: a intervenção na Venezuela não é apenas geopolítica, é política industrial por outros meios.
O presidente Donald Trump sinaliza essa abordagem ao falar em “consertar” países por meio de operações econômicas e estratégicas e ao afirmar, em seus discursos, que investimentos realizados anteriormente pelos Estados Unidos na Venezuela teriam sido apropriados de forma indevida.
Portanto, além das petrolíferas, os beneficiários vão muito além do setor energético, alcançando a indústria pesada e o setor de serviços, numa narrativa que reforça a associação entre intervenção, reconstrução e reposicionamento de interesses econômicos.
Dessa forma, a nova estratégia reforça a coexistência das abordagens da “velha geopolítica” dos combustíveis fósseis com a “nova geopolítica”, da transição energética.
Observa-se uma tendência dos EUA de buscar novas fontes de petróleo, mesmo em um cenário global de combate às mudanças do clima.
Por outro lado, o país se posiciona na “nova geopolítica” como parte central das cadeias de minerais críticos e terras raras, insumos essenciais para as tecnologias de energias renováveis e verdes.
Essa prática aumenta a insegurança de países sob ameaça e estimula maiores gastos em segurança nacional, reduzindo o espaço fiscal para políticas públicas de desenvolvimento.
Tais gastos também levantam questionamentos, pois, sob a justificativa da segurança nacional, frequentemente escapam a critérios tradicionais de eficiência e avaliação, além de enfraquecer salvaguardas ambientais, com impactos sobre ecossistemas locais e sobre as mudanças climáticas globais.
Nesse contexto de importantes mudanças e instabilidades, o Brasil precisa ser muito cuidadoso em suas escolhas e lançar mão de suas melhores armas: a habilidade negocial da diplomacia e seus diferenciais estruturais para a transição energética, posicionando-se de forma estratégica junto aos EUA e aos demais polos de poder.
Nesse posicionamento, não podemos perder de vista que, além de contar com matérias-primas essenciais para tecnologias associadas à transição, o país dispõe de energia limpa e outros recursos para ampliar de forma expressiva sua produção industrial com baixas emissões de carbono.
Isso abre espaço para uma inserção internacional menos concentrada na exportação de commodities e mais orientada à agregação de valor, apoiando a descarbonização de outras economias de maneira mais competitiva do que a transformação isolada de suas matrizes energéticas.
O fato é que, por piores que sejam os efeitos políticos, sociais e climáticos da nova estratégia geopolítica americana, o Brasil ainda tem espaço para agir e fomentar agendas estratégicas de longo prazo favoráveis ao seu próprio território.
Clauber Leite é diretor de Energia Sustentável e Bioeconomia do Instituto E+ Transição Energética.
