JUIZ DE FORA — As primeiras leituras de gestoras globais e agências de risco indicam que a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro no sábado (3/1), teve impacto limitado sobre os preços do petróleo no curto prazo.
O consenso entre Janus Henderson, Moody’s, Goldman Sachs e Fitch Ratings é que a baixa relevância atual da Venezuela na oferta global e o tempo necessário para recuperar a produção funcionam como amortecedores imediatos, ainda que o cenário de longo prazo carregue riscos de pressão baixista sobre a commodity.
Para a Janus Henderson, o mercado reagiu com relativa calma porque a Venezuela hoje responde por menos de 1% da oferta mundial, com grande parte de seus embarques direcionados à China.
Segundo o gerente de Portfólio da Janus Henderson, Noah Barrett, “os preços do petróleo têm estado bastante calmos” nos dias seguintes à operação militar, refletindo o fato de que um “número significativo de barris venezuelanos incrementais não chegará ao mercado da noite para o dia”.
A gestora avalia que apenas um fluxo consistente de investimentos — capaz de recuperar a infraestrutura deteriorada — teria potencial para alterar o equilíbrio de preços no médio e longo prazos.
A Moody’s reforça a avaliação ao afirmar que a captura de Maduro “não mudará materialmente a oferta da commodity” em 2026. Mesmo em um cenário de recuperação acelerada para cerca de 1,1 milhão de barris por dia, a produção venezuelana ampliaria um superávit global já projetado até 2027.
Em novembro de 2025, as exportações estavam em torno de 950 mil barris por dia, caindo para aproximadamente 500 mil barris por dia em dezembro, após bloqueios e apreensões de navios — volumes insuficientes para alterar o balanço global.
Já a Goldman Sachs classifica os riscos de curto prazo como “ambíguos, porém modestos”, dependentes da política de sanções dos EUA. O banco manteve suas projeções médias para 2026 em US$ 56 o Brent e US$ 52 o WTI, estimando variações limitadas mesmo com oscilações de até 400 mil barris por dia na produção venezuelana.
No horizonte mais longo, porém, o tom muda: se a Venezuela alcançasse 2 milhões de barris por dia em 2030, o banco estima uma redução de cerca de US$ 4 por barril nos preços globais até o fim da década.
A Fitch Ratings segue na mesma linha ao apontar que os efeitos sobre empresas americanas de exploração e produção são limitados no curto prazo “em um mercado global atualmente superabastecido”. Segundo a agência, ganhos relevantes exigiriam tempo, capital e mudanças políticas profundas.
A Fitch observa, no entanto, que refinarias americanas de alta complexidade poderiam se beneficiar de uma eventual maior oferta de petróleo pesado, enquanto produtores concorrentes — como os canadenses — enfrentariam alguma pressão de preços, ainda que sem impacto relevante sobre ratings.
Vai-e-vem do barril reflete cautela
A reação dos preços do petróleo nos primeiros dias após a ofensiva reforçou essa visão. Na segunda-feira (5/1), o risco geopolítico se sobrepôs às preocupações com excesso de oferta e levou o Brent a subir 1,66%, para US$ 61,76, enquanto o WTI avançou 1,74%, a US$ 58,32.
Já na terça (6), o movimento se inverteu: o Brent caiu 1,72%, para US$ 60,70, e o WTI recuou 2,04%, a US$ 57,13, em uma sessão marcada por forte volatilidade.
Para ING e Pepperstone, o rally nos preços reflete o ceticismo do mercado quanto a uma recuperação rápida da produção do país sul-americano. Ambas destacam que qualquer aumento relevante de oferta exigiria dezenas de bilhões de dólares em investimentos e não altera, por ora, a perspectiva global. Como resumiu a australiana Pepperstone, trata-se de uma “história para um horizonte bem mais distante”.
Americanas sobem, brasileiras caem
Nas bolsas, a reação foi mais clara — e seletiva. As ações de petroleiras americanas dispararam com a perspectiva de acesso futuro aos ativos venezuelanos. Na sessão de segunda-feira (5), Chevron subiu 5,13%, ConocoPhillips avançou 2,62% e ExxonMobil ganhou 2,25% em Nova York. (Valor Investe)
A Chevron é hoje a única major americana ainda em operação na Venezuela, por meio de parcerias com a estatal PDVSA. A ExxonMobil, por sua vez, não atua mais no país.
Em 2023, a Exxon afirmou ter a receber US$ 984,5 milhões do governo venezuelano após arbitragens ligadas à expropriação de seus ativos em 2007 — valor cuja cobrança foi reconhecida por um tribunal dos EUA em setembro de 2025.
O mercado passou a precificar a possibilidade de que petroleiras dos EUA liderem uma eventual reconstrução do setor energético venezuelano. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que, a partir de agora, “grandes empresas americanas” investirão “bilhões de dólares” na estrutura do país para explorar as gigantes reservas de petróleo da Venezuela “e começar a ganhar dinheiro”.
No Brasil, o movimento foi o oposto. A Petrobras caiu cerca de 1,7%, com perda estimada de R$ 6,8 bilhões em valor de mercado, enquanto Prio recuou 1,46% e Brava Energia despencou 5,75%. Apenas a PetroReconcavo fechou em alta, com variação positiva de 0,63%. (Folha de São Paulo)
Analistas apontam que investidores locais passaram a precificar maior concorrência regional e risco de pressão estrutural sobre os preços do petróleo no médio prazo, caso a Venezuela volte a produzir em escala.
Como resumiu Lucas Sharau, da iHUB Investimentos, ao Valor Investe, o preço das ações reage menos à geopolítica em si e mais às expectativas de geração futura de lucro. Um eventual aumento da oferta global pode comprimir margens, mesmo que esse cenário ainda esteja materialmente longe.
Em síntese, o mercado avalia que a invasão dos EUA redesenha o tabuleiro geopolítico, mas não altera, no curto prazo, o equilíbrio do mercado de petróleo. A volatilidade recente do barril e a reação das ações refletem menos o cenário atual e mais as incertezas sobre quando, como e em que condições o potencial venezuelano pode, de fato, se converter em oferta.
Na avaliação do diretor da MA2 Energy, Marcelo de Assis, a restauração mínima da indústria exigiria ao menos US$ 120 bilhões em investimentos ao longo de uma década.
Para que esse capital chegue, afirma, a Venezuela precisará oferecer um ambiente regulatório estável, instituições sólidas e uma estatal PDVSA fortalecida — condições que, segundo o ex-diretor-geral da ANP David Zylbersztajn, ainda não existem hoje no país.
Reservas em xeque
E mais desconfiança. Apesar de o governo venezuelano sustentar que o país detém cerca de 300 bilhões de barris em reservas provadas (1P), estimativas independentes da Rystad Energy apontam números bem menores: 4 bilhões de barris em reservas provadas e 23 bilhões em reservas descobertas. Ainda assim, a Venezuela oferta menos de 1% do óleo global, mesmo sendo membro da Opep.
Mais do que o volume declarado, o que sustenta o interesse do mercado é o perfil do óleo venezuelano. Cerca de 67% da produção é de petróleo pesado, insumo estratégico para refinarias na Ásia e, historicamente, na Costa do Golfo dos EUA. Em 2024, o país produziu 975 mil barris por dia, dos quais 657 mil barris/dia eram de óleo pesado — o equivalente a apenas 1% da oferta global, mas 4,5% da oferta mundial desse tipo de petróleo, segundo a Rystad.
