diálogos da transição

Transição do carvão avança na Europa; EUA e China ficam para trás

Capacidade global de carvão aumentou para 2.175 GW em 2024 – 259 GW a mais desde que o Acordo de Paris foi assinado em 2015

Usina termelétrica movida a carvão lançando grandes volumes de gases de efeito estufa na atmosfera (Foto Catazul/Pixabay)
Desde que o Acordo de Paris foi assinado, 21 países se comprometeram a eliminar a geração a carvão, muitos deles até 2030 (Foto Catazul/Pixabay)

NESTA EDIÇÃO. Descomissionamento de usinas a carvão quadruplicou na União Europeia em 2024 e Reino Unido concluiu a eliminação gradual da fonte.

No sentido contrário, China e Índia ampliam adições de capacidade fóssil.

EUA segue em marcha lenta em direção à saída do carvão. 


EDIÇÃO APRESENTADA POR

Levantamento do Global Energy Monitor (.pdf) publicado na quinta (3/4) mostra que o descomissionamento de usinas a carvão na Europa avançou em 2024, com 24 dos 27 países membros da União Europeia projetando o fim da dependência do combustível fóssil até 2033.

No ano passado, as aposentadorias no bloco quadruplicaram em relação a 2023, num total de 11 GW – sendo 6,7 GW apenas na Alemanha. Já Irlanda e Espanha devem encerrar a geração de eletricidade a carvão em 2025.

Enquanto isso, fora da UE, o Reino Unido concluiu a eliminação gradual da fonte fóssil na sua matriz. 

Mas em outros lugares, a transição está mais lenta. Nos Estados Unidos, as aposentadorias caíram para 4,7 GW – o menor total anual do país desde 2014, em uma desaceleração que começou em 2021.

O estudo observa, no entanto, que a saída dos EUA do carvão tende a ganhar ritmo nos próximos anos, independente do apoio do governo Trump à fonte.

“Mais carvão foi aposentado durante o primeiro mandato de Trump do que sob Obama ou Biden — uma tendência que deve continuar”, diz o relatório.

China, maior consumidora global, estabeleceu no plano quinquenal 2021-2015 a meta de descomissionar 30 GW de termelétricas a carvão. O país, no entanto, está ampliando sua capacidade: em 2024, foram adicionados 30,5 GW — 70% do total global — e 94,5 GW começaram a ser construídos.

Isso contribuiu para que a capacidade global de carvão aumentasse para 2.175 GW – 259 GW a mais desde que o Acordo de Paris foi assinado em 2015.

Índia também registrou seu maior nível de novas propostas de carvão, totalizando 38,4 GW. Aliás, China e a Índia sozinhas são responsáveis ​​por 87% da capacidade de energia a carvão em desenvolvimento no mundo, calcula o monitor.



Combustível fóssil com a maior pegada de carbono e a pior taxa de eficiência energética, o carvão mineral responde por cerca de 4% da geração de eletricidade no Brasil, mas foi o grande responsável pelo aumento das emissões por GWh na geração termelétrica em 2023.

As usinas carboníferas brasileiras – concentradas na região Sul – enfrentam agora o dilema da transição energética. Elas tentam encontrar uma forma de dar longevidade aos ativos, ao mesmo tempo em que organizações ambientais apontam a insustentabilidade econômica de manter essas térmicas em operação.

“No período de 2020 a 2024, o governo brasileiro gastou uma média de R$ 1,07 bilhão anualmente em subsídios para a geração de eletricidade a carvão. Os subsídios governamentais para combustíveis fósseis também continuam a superar aqueles para energias renováveis, apesar de estas atraírem mais investimentos estrangeiros”, aponta a Arayara, ONG que contribuiu com o capítulo sobre Brasil no estudo do Global Energy Monitor.

Em fevereiro, a discussão sobre recontratação das usinas termelétricas a carvão no Brasil chegou ao governo federal com o pedido do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), ao Ministério de Minas e Energia pela edição de uma medida provisória para a recontratação da usina de Candiota. 

Comprada em 2023 da Eletrobras pela Âmbar Energia, a UTE Candiota teve o fim do contrato em dezembro do ano passado. 

A expectativa era que a situação fosse equacionada no marco legal das eólicas offshore, que previa a extensão dos contratos das termelétricas a carvão até 2050. O trecho foi vetado pelo presidente Lula (PT) da versão final do texto, que aguarda confirmação pelo Congresso.


De volta para o petróleo. A BP decidiu dissolver sua equipe destinada a desenvolver projetos de mobilidade com hidrogênio, gás natural liquefeito (GNL) e elétrica, principalmente para caminhões, como parte da estratégia anunciada em fevereiro para aumentar investimentos em óleo e gás, informou o Financial Times na quinta-feira (3/4).

Leilão das térmicas 1. Contratação mais aguardada do ano pelo setor de energia elétrica brasileiro em 2025, o leilão de reserva de capacidade será cancelado pelo Ministério de Minas e Energia, com a revogação da portaria que instituiu a contratação nesta sexta-feira (4/4). O ministério pretende abrir consulta pública com diretrizes para um novo leilão.

Leilão das térmicas 2. A Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia (Abrage) lamentou o cancelamento do leilão e afirmou que as geradoras hidrelétricas podem até mesmo antecipar a entrada em operação de projetos para disponibilizar potência adicional ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

Fiscalização de combustíveis. MME e Ministério da Gestão e Inovação definiram na quinta (3/4) os procedimentos para doação de equipamentos à ANP que permitirão verificar in loco a mistura de biodiesel em postos de combustíveis. A medida busca combater fraudes no setor.

Abertura do mercado livre. Oferecer um assessor energético que identifica de forma personalizada as oportunidades de eficiência e redução de custos com energia de uma empresa, é a proposta da Neoenergia para captar clientes no concorrido mercado de comercialização brasileiro. Essa, em meio à abertura do ambiente livre a todos os consumidores de média e alta tensão a partir de 2024, a companhia investe no auxílio ao cliente na migração.

Sustentabilidade adiada. A União Europeia adiou a aplicação de regras de ‘due diligence’ e relatórios de sustentabilidade para empresas do bloco. A medida faz parte de um esforço para que as regulamentações ESG europeias sejam adiadas ou simplificadas. (Reset)

Transição justa do carvão, uma política social Consumidor está arcando com R$ 40 bilhões por ano em subsídios e uma “transição” que não resolve estruturalmente o problema social, avalia Mariana Amim

Governo precisa “vender” hidrogênio brasileiro Embora o governo brasileiro demonstre grande preocupação em desenvolver mercado doméstico, notadamente, o mercado internacional se desenvolverá mais rapidamente, escreve Gabriel Chiappini

Desafios e tendências da transição energética na Era Trump No curto prazo, certeza de que haverá inflação, escreve Mauro Andrade

A concorrência e seu impacto no futuro do setor elétrico brasileiro Aneel busca regulamentar concorrência no mercado livre de energia após abertura, escreve Eduardo Miranda

Gestão sustentável de resíduos e os desafios da recuperação energética Avanços legislativos sobre logística reversa não garantem destinação adequada de resíduos no Brasil, escrevem Luciana Gil e Thais Monteiro

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